Numa bela noite como tantas que tinhamos em Lourenço Marques, eu mais um colega e amigo da Firma onde ambos trabalhávamos fomos tomar um copo de fim de tarde ao Miramar, conversa puxa conversa ali ficámos até sensivelmente às 08 da noite, combinámos então ir jantar à Costa do Sol, como ainda era cedo, fomos parar um bocado para conversar nos chamados pinheiros onde muitos casais paravam uns para namorar outros simplesmente para conversar.
Certo é que nós nessa noite estranhamos nesse lugar haver muito pouca gente e carros (o que não era costume) mas, não ligámos ao caso pois quem não deve não teme...acontece que quando estávamos já um bocado longos na conversa o meu amigo começou a ver uns movimentos estranhos do meu lado e começou a ligar o carro e na altura em que iamos arrancar deitaram a mão à minha porta mas não conseguiram abri-la bateram com a catana no carro, e, mais aflitivo ainda o carro começou a enterrar na areia ele meteu o acelerador a fundo e como eu costumo dizer que fo Deus que nos deitou a Sua Mão pois o carro começou a andar conseguindo desembaraçar-se da areia que o prendia e conseguimos sair dos pinheiros e pomo-nos instantemente na estrada...eu tremis e sentia-me paralisada, nem eu nem ele conseguimos articular palavra por uns largos momentos, isto eram para aí uma 9.15 da noite no ano de 1976, pensei que já não viria a minha filha de 4 meses e meio e que nunca mais sairia de Lourenço Marques pois que já tinhamos passagem marcada para vir para Portugal, posso dizer que só este momento de estar a relatar este drama continuo a ficar aflita e sem forças pois a aflição nessa noite foi brutal, e já agora posso dizer que com quem estava era o pai da minha menina e estávamos a conversar sobre ele assumir a filha o que veio acontecer para depois indo cada um para seu lado, hoje sou feliz com o homem com quem casei há 21 anos, temos 2 filhos lindos, a outra minha filhota já está casada tendo ela 34 aninhos.
Meus amigos espero ter contribuido com a minha veridica história e espero que ela esteja bem contada, mas muito sinceramente ainda me sinto aflita só de falar.
Muito obrigada
Bem hajam
Paula
terça-feira, 13 de julho de 2010
sábado, 26 de junho de 2010
Workshop / Oficina - Comida Moçambicana e Goesa
Workshop / Oficina - Comida Moçambicana e Goesa
Hummm.........que delicia.........
Data: Domingo, 4 de Julho de 2010
Hora: 15:00 - 18:00
Local: Sede da Acrenarmo - Leiria
Formadores : Nuno Sequeira (Restaurante Cardamomo) e Francelina Gomes
Data limite para inscrições: até 30 de junho
Preço: 30,00€/pessoa
Contactos para inscrição: Natália Sapinho - 912127746 - lenasapinho@gmail.com
Confecção de:
Entradas:
. Apa com Baji e salada Rait
. Batata doce frita
. Camarões fritos com alho
Pratos principais:
. Caril de amendoim com galinha, acompanhado por arroz branco
. Matapa
Sobremesas:
. Doce de mandioca
. Doce de grão
No final é oferecido um livrete com as receitas confeccionadas e outras.
Etiquetas:
Actividades,
Desafio,
Divulgação
Convívio da Acrenarmo no Badoca Safari Park - 17/07/2010
Cá estamos de novo para nos juntarmos e fortalecermos ainda mais os laços que nos unem, e partilharmos a boa disposição que nos caracteriza.
Desta vez o convívio dos Naturais e Ex-residentes de Moçambique e amigos, será no Badoca Safari Park, em pleno Alentejo (Vila Nova de Stº André), entidade que estabeleceu um acordo de parceria com a Acrenarmo.
É um local muito bonito, onde a natureza é o elemento mais marcante.
A escolha do local foi propositada, de modo a permitir a muitos reverem alguns animais africanos, e não só, em estado selvagem. Animais como avestruzes, búfalos, gamos, girafas, gnus, impalas, muflão, palancas negras, tigres, veados, zebras, chimpanzés, babuínos, águias, falcões, burros, cabras, cangurus, iaques, lamas, ovelhas, papagaios, araras, catatuas, iguanas, tucanos, cegonhas, flamingos, lemures e muitos, muitos mais, farão as delícias de todos.
Também esta escolha visa permitir e incentivar as gerações mais novas para que se juntem a estes convivíos por forma a partilhar as experiências e vivências dos mais velhos. A convivência de gerações foi aliás uma das nossas principais motivações.
Por isso mesmo, pedimos a todos que divulguem junto dos amigos de longa data, e que apareçam com os filhos e netos neste convívio que, estamos certos, será do agrado de miúdos e graúdos.
Ambanine e Kanimambo
Acrenarmo
O Parque abre às 10h00, encerra às 18h00. Último safari é as 17h00.
HORÁRIOS DAS ACTIVIDADES
Safari:
Marcação por ordem de chegada / Saídas regulares.
Duração aproximada de 1 hora.
Apresentação de Aves de Rapina:
- 11h00 / 14h30
Duração aproximada de 30 minutos.
Sessão de alimentação dos Lémures:
- 11h45 / 14h00
Duração aproximada de 30 minutos.
Rafting Africano:
- 14h30-15h30
Por uma questão de logistica, apenas são aceites pagamentos por cheque ou vale correio
EMENTA
Entrada
Creme de Legumes
Prato Principal
Bifinhos c/ Cogumelos
Sobremesa
Salada de frutas
Couvert:
Pão, manteiga e azeitonas
Bebidas:
Vinho branco, tinto ou sangria (1 jarro/2 pessoas), sumo, água e café.
(Composição da Ementa: Couvert+entrada+1 prato+sobremesa+Bebidas)
Quem quiser ir carregado com cesta de piquenique, poderá fazê-lo, pois existe parque de merendas. No entanto, a Acrenarmo e o Badoca Safari ParK, não se responsabilizam pela guarda de objectos durante o Safari.
As inscrições são até 30/06/2010
Apenas são aceites pagamentos por cheque ou vale correio
De de 30/06/2010 a 10/07/2010 o valor terá uma penalização de 5,00 €/pessoa
Depois de 10/07/2010 não serão aceites inscrições
Para quem quiser deslocar-se de autocarro, os nossos amigos mensionados em seguida, disponibilizáram-se para nos ajudar e organizar o transporte.
De outros locais ainda não mensionados, agradecemos a vossa ajuda e disponibilidade.
Iremos indicando no nosso blog outras informações que surjam.
Por favor entrar em contacto o mais breve possivel.
• ATENÇÃO: O transporte não está incluido na inscrição.
Algarve............................Virgílio Comenda Pina......................... 965046455
Braga............................... Armando de Oliveira E Castro............ 966723945
Caldas da Rainha............. Isabel Seno (até 25 de Junho) ……... 919515995
Coimbra.......................... António Almeida (Tonito Almeida).. 967088533
Évora ...............
Guarda .............
Leiria............................... Graça Gaio ( ACRENARMO ) ............ 919889640
Lisboa ..............
Porto ...............
Setúbal .............
.......................
Braga............................... Armando de Oliveira E Castro............ 966723945
Caldas da Rainha............. Isabel Seno (até 25 de Junho) ……... 919515995
Coimbra.......................... António Almeida (Tonito Almeida).. 967088533
Évora ...............
Guarda .............
Leiria............................... Graça Gaio ( ACRENARMO ) ............ 919889640
Lisboa ..............
Porto ...............
Setúbal .............
.......................
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Saudades
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Histórias de um passado em Moçambique - "Aterragem Forçada na Lagoa Pati" (versão César Morais)
Não resisto à tentação de partilhar esta "Aventura" em Moçambique. A Isabel Ribeiro lembrou-ma.
Fui buscá-la ao Blog da Luísa Hingá, para onde lha enviara há tempos.
Blog Voando em Moçambique
Estavam a acabar as férias. Recomeçavam as aulas no Liceu 5 de Outubro, o único em todo o Moçambique, na época. Tínhamos de voltar a abalar para Lço. Marques.
Eu voltava, uma vez mais, para casa do Sr. Abrunhosa, na 24 de Julho, nº 49.
O dia do “embarque”, no aeroporto de Quelimane estava marcado com antecedência. O tempo estava a pôr-se chuvoso, o que era “chato” para se andar de avião. Já tínhamos feito 4 vezes aquela viagem entre Quelimane e Lço. Marques. Sempre que íamos para, ou vínhamos, das aulas. A distância não permitia outro meio de transporte.
A DETA tinha uns aviões pequenos, que “dançavam” muito nos “poços-de-ar” e, faziam muito “mais esforço” a subir e a descer… Qual seria o que nos iria calhar desta vez?
Bom. Este avião vinha do Norte, de Nampula, já com alguns estudantes e, seguiria connosco, reco-lhendo mais alguém na Beira e, se calhasse... em Inhambane também.
Chegara o dia. Lá fomos para o aeroporto (era o “aeroporto velho” ainda). Estávamos lá todos, no bulício habitual destas chegadas e partidas. Os passageiros mais as famílias e amigos… mais os que por profissão a isso eram obrigados… e, vários curiosos. Havia uma série de coisas para fazer, antes de “embarcar”. Meu pai foi tratar disso.
Chegou algum tempo depois, mas... para dizer que o avião tinha chegado com uma avaria e que estavam a tratar disso…
-“Bolas! Ir num avião que acabava de chegar, avariado!!!!... Não me senti especialmente feliz com a notícia.”
Bom… o pior é que passada cerca de uma hora, nos vieram dizer que a avaria exigia uma peça nova, e que ela teria de vir de Lço. Marques… pelo que o voo ficava adiado.
Uf!... Pelo menos já não íamos naquele dia! Com uma avaria remediada, se calhar, à pressa!...
Voltámos para casa… mais uns dias de férias… Bestial!...
Dois ou três dias depois, com céu meio encoberto… lá voltámos ao aeroporto…
Desta vez era para valer mesmo. A peça tinha chegado e até tinha vindo com ela um Engenheiro da DETA, para corrigir a situação. Ele regressava a Lço. Marques connosco.
- “Todos a bordo!”
Fiquei sentado no último banco cá atrás, do lado direito da cabine… o único duplo. Mas fiquei junto à janela, donde podia ver tudo lá para baixo pois ficava atrás da asa direita. Ao meu lado ficou sentado um “miúdo”, também estudante, cujo nome e proveniência já me não recordo… e também, o tal Engenheiro da DETA.
Hoje ao ver uma réplica do Junker no Portugal-dos-Pequenitos em Coimbra… admira-me o quão pequeno era aquele avião… e como era pequena a cabina e acanhados os lugares para os passageiros. Na altura achei-o, com prazer… um avião bem grande, com uma cabina bem espaçosa… comparando-o com os outros em que já fizera aquela viagem antes… É giro ver como são diferentes as perspectivas, de acordo com as transformações que nós próprios vamos sofrendo!...
No banco à minha frente sentou-se a D. Ana do Chinde (que só agora fiquei a conhecer, ao ler o extracto do livro do Comandante Faria Peixoto). Vinha com uma perna engessada (provavelmente partida…) e que ajeitou ao lado do banco à sua frente. Era mesmo uma pessoa alegre e comunicativa.
Levantámos voo e seguimos viagem, impecavelmente, com bom tempo e, rapidamente estávamos acima daquelas grandes nuvens muito brancas e resplandecentes ao sol, desenhando aqui e ali formas variadas, com pequenos nichos de sombra, a dar-lhes aquela perspectiva tridimensional maravilhosa. Voávamos dentro de um pequeno-grande mundo virtual… que estava mesmo ali!
Parámos na Beira. Sempre uma delícia sair do avião!... Muito melhor do que quando entramos… Terra firme!... vida e movimento!... O calorzinho de “lá-de-fora”!... andar, ver e contactar com pessoas e paisagens diferentes…
Voltámos ao voo, a caminho de Lço. Marques… das aulas… das jogatanas muito disputadas ao berlinde, nos intervalos… dos jogos do “paulito” na Rua Coronel Galhardo por trás da 24 de Julho, com a “malta” (o Manel – Cara-Suja, o Rodrigo Tudela, o Nuno Revés, e às vezes outros que se nos juntavam) … das cowboiadas nas matinés de sábado no Scala, à borla, naquela “nossa” fila do balcão, com direito a filme duplo, mais um episódio do Super-Homem, mais aquele batido de sorvete e coca-cola na Socigel, naquela esquina para onde corríamos no intervalo da matiné… (era uma fila atribuída aos Cabaços e amigos – o Zé Luís Cabaço, o Manel Jorge, o Márito e a Nélita)…
Bom! Mas surpresa!... Estávamos a perder altura de forma controlada e íamos aterrar de novo!... Seria Inhambane?...
Era Mambone. Um aeroporto desactivado. Aterrava ali pela primeira vez. Bestial! Mais um aeroporto conhecido!... Era uma pequena pista (mal amanhada) e uma palhota grande, com espaços para as pessoas poderem estar… com bancadas de madeira… e um compartimento fechado, onde havia um telefone.
Tínhamos parado para que a tripulação ficasse a saber bem como estava o tempo entre Inhambane e Lço. Marques.
Havia um ciclone que se mantinha nessa zona. Ainda bem que o Comandante Nogueira tinha metido na Beira, gasolina em quantidade francamente superior à habitualmente necessária, pois iríamos ter assim, maior disponibilidade de recursos para enfrentar o mau tempo.
- “Tudo p'ró avião!”
E aos “tropeções” na pista de Mambone lá levantámos voo… (o último daquele Junker… que até tinha na altura, a mesma idade que eu… 11 anos).
O tempo estava magnífico… radioso…
… Bem à nossa frente! … De repente!... Desenhou-se o horrível!...
Uma enorme massa de nuvens cinzentas e negras… estendendo-se de horizonte a horizonte…em direcção às quais, estávamos inexoravelmente a voar…
Era nítida a diferença entre o espaço limpo, luminoso, ensolarado e rico daquelas nuvens, cúmulos majestosos, em que agora voávamos e aquela enorme massa cinzenta-negra, bem ameaçadora, em direcção à qual estávamos a avançar a grande velocidade.
Estamos tramados! Vai começar a “dança”! – pensei.
Os 3 motores do Junker mantinham a sua toada, ronronando de forma uniforme… a que já nos habituáramos…
Bom! Começou! Entrámos nas nuvens negras! O avião começou logo a sacudir-se… a abanar… e começaram os malditos poços-de-ar…de vez em quando lá tínhamos aquelas quedas-desamparadas… para logo depois ficarmos pregados nos lugares com o avião a retomar a altitude a toda a força dos seus três possantes motores da Junker.
Sentimos o avião a lutar para subir acima daquela massa de nuvens ameaçadoras… Continuavam as sacudidelas, abanões e poços-de-ar… mal saíamos de um, caíamos logo noutro!...
As pessoas começaram a enjoar e a vomitar nos respectivos sacos, que depois punham nas redes por cima das cabeças, já fechados e cheios.
Alguém precisou de ir ao WC, um pouco atrás do nosso banco… quando de lá saiu ficou um rasto algo mal-cheiroso… que acabou por passar…
O avião não conseguiu (ou não quiseram forçá-lo a isso) sobrepor-se às nuvens do ciclone, e à alti-tude a que voávamos viam-se em baixo, só copas-de-árvores-enormes e… água. Os terrenos que sobrevoávamos já estavam encharcados com aquela chuva ciclónica.
Lembro-me de pensar como seria bom que aterrássemos depressa para que aquilo tudo acabasse. Estávamos, de repente, todos exaustos de tanto abanão… de tanta tensão, com aquelas quedas bruscas e subidas também bruscas…
De repente!
- “Rezem meus filhos que vamos morrer! Avé Maria, cheia de Graça…”
A D. Ana do Chinde, mesmo à minha frente soltara este grito, começando logo a rezar… e nós todos a segui-la na oração e a responder-lhe alto nas – “Santa Maria, Mãe de Deus…”
Olhei de imediato para o meu motor (o da asa direita) e estava tudo bem. Foi quando consegui, apesar dos abanões, espreitar para o motor da esquerda… que percebi – estava parado!!!! Mas o Junker tinha 3 motores… O avião mantinha-se impecável no seu ímpeto selvagem a subir rapidamente quando recuperava de um poço-de-ar… os abanões e sacões eram os mesmos…
- “Santa Maria, Mãe de Deus…”
Pronto! Isto está mesmo mal! O motor da direita, ali mesmo a meu lado, “resfolegou”… ainda ten-tou… mas acabou também parado!!!... Como estaria o motor da frente?????
Também parara...
Aí vamos nós a planar… mas super-exaustos para pensarmos em alguma coisa… e anestesiados pela oração…
- “Avé Maria, cheia de Graça…”
Lá em baixo, agora mais nítido… era só água e copas-de-árvores… copas-de-árvores e água… chovia torrencialmente, relampejava e o avião sacudia-se numa “dança-maluca”…
- “Uiiiii!!!... Um poço-de-ar bem maior… em que o avião “parecia-que-se-tinha-dobrado-a-meio-e-descido-a-pique”… para endireitar-se depois… mas sem ter feito então, aquele potente esforço motorizado habitual para retomar a altitude…
- “ Santa Maria, Mãe de Deus…” Continuávamos todos a rezar. Tinham-nos mandado apertar os cintos. Nós naquele banco duplo, não os encontrámos. O Engenheiro fincou os pés na base do banco da frente e agarrou com força o meu companheiro, ao seu lado. A mim aconselhou-me que me segurasse ao ferro horizontal das costas do banco da frente e que baixasse a cabeça.
- Uiiii!!!... Mais uma vez aquele frio horrível na barriga, produzido por nova queda aparentemente a pique, devida a novo poço-de-ar e mais uma vez o avião a endireitar o nariz e a reequilibrar-se naquela barafunda infernal… mas sem voltar a ganhar altitude…
- “Ave Maria cheia de Graça…”
Já estávamos bem baixos… A aterragem estava eminente… Chovia torrencialmente… O avião sacudiu-se ao cortar os ramos de uns coqueiros e algumas árvores com as asas e os estabilizadores do leme e…
Buumm!...Buumm! Esssssssllslslsls!... Silêncio!...
Doía-me a cabeça à frente e atrás… das pancadas que terei dado no ferro do banco da frente…mas… de resto tudo bem! Logo apareceram os tripulantes com as caras ensanguentadas, com vários lenhos, escoriações e cortes… mas “completamente bem”!
Todos bateram as palmas e todos se levantaram a abraçar-se.
O Engenheiro com alguma dificuldade, pois escorregara e magoara uma perna debaixo do banco da frente do lado esquerdo da coxia central… a ponto de partir o banco. A D. Ana, com a sua perna engessada, escapara ilesa e fazia por se levantar e felicitar efusivamente os pilotos e todos. Estávamos todos bem!
O avião “sossegara” de vez! Lá fora só chuviscava e nem estava uma tarde muito escura!...
Com a violência do embate...os sacos com vómitos caíram de cima das redes e espalharam o con-teúdo por onde calhou. A porta do WC tinha-se partido… os cheiros misturaram-se e eram nauseabundos…
Vomitei! Por certo pelo cheiro… pelos nervos… pelo fim daquela tensão toda.
Abriram-se as janelas de emergência para ventilar… saíram os maus cheiros, mas entraram nuvens de mosquitos…
A porta do avião abriu, não sem alguma dificuldade.
Um ou dois dos tripulantes saíram, pois tinham avistado umas pessoas, por certo habitando ali por perto, que teriam presenciado a queda do avião. Mas voltaram sem terem encontrado ninguém, nem habitações.
Recolheram-se as bolachas, merendas e garrafas de água ou sumos que as pessoas levavam. À cautela.
Nós os miúdos, acomodámo-nos nos bancos em que vínhamos para não atrapalhar os movimentos e deliberações dos adultos. A noite caíu rápida. Acenderam-se candeeiros a petróleo para não gastar as baterias… necessárias para pedidos de socorro, pela rádio, na manhã seguinte.
Para os mosquitos da Lagoa Pati, em cujas margens tínhamos aterrado… estava a ser um festim… mas a cada palmada também matávamos aos seis ou sete de cada vez…
Os calções curtos e balalaica de manga curta que trazia… por mais que me enrolasse no meu canto do banco duplo… não me conseguiam livrar minimamente daquele feroz bicho da selva africana.
Os grilos, as rãs e a restante bicharada da zona, ia enchendo a noite de ruído… mas ruído do bom… ruído bem terrestre e conhecido… que nos encantou.
Olá! Estavam umas luzes lá fora a aproximarem-se de nós! Alguém vinha ter connosco!
Era um professor, regente escolar, de uma Escola próxima, que tinha sido alertado pelas tais pes-soas que tinham presenciado a queda do avião, e que já tinha enviado “estafetas” a comunicar a nossa situação e localização à Administração de Macia.
E… Maravilha! Trazia leite e chá quentes, em garrafas térmicas, e mandioca cozida (sem sal). Coube a cada um de nós uma chávena de leite quente (e chá se quisesse), e duas mandiocas cozidas. Huum!... Uma delícia!... Mesmo sem sal…
Tudo na maior!... Se não fossem os mosquitos…
Dormimos o que pudemos.
Madrugada bem cedo chegaram 3 a 4 Jeeps que desceram a mata até bem perto do avião, com pessoas da Administração de Macia, com mais leite e chá quente, pão, bolos e bolachas… Ninguém passou fome mesmo…
Agora é que podíamos ver bem o avião. Só tinha os estabilizadores do leme da cauda esfrangalha-dos. O trem de aterragem, partido no primeiro e estrondoso embate, tinha ficado uns 100 metros atrás…o avião tinha deslizado “de barriga”… e parado a outros 100 metros das primeiras árvores em frente… Perícia do Comandante Álvaro Nogueira e... Milagre para todos!...
A caravana partiu aliviada e bem disposta para Macia. A Esposa do Administrador e as outras Senhoras tinham preparado um “lanche-almoçarado” volante, em grandes mesas. Comemos e bebemos refrigerantes e sumos à vontade.
- “Quem é o estudante António César Morais?...”
- “Sou… eu! Disse, admirado…
- “Venha daí, que vai ser o primeiro a ser evacuado! A avioneta já está pronta!
- “Mas… eu? … Porquê?... Assustei-me… (Avioneta!!! NÃO!!! Eu NÃO!!! De avião outra vez!!!!? Não! Não!... Mas que fazer para o evitar????)
- “Sim. O seu pai está no aeródromo do Bilene, à sua espera e pediu-nos para que fosse o primeiro a ir.”
- Mas… de avião?!!!...
- “Sim. O ciclone cortou a estrada entre Macia e o Bilene. Está tudo inundado. Tem de ser de avio-neta.”
Enfiaram-me um enorme casacão de couro, que me tapava até aos pés, e um capacete também de cabedal, de aviador, com óculos de protecção (daqueles antigos)… Bom até já me estava a sentir vaidoso com aquela fardeta, a sério, de aviador…
Sentei-me no lugar da frente, amarrado com vários cintos de segurança… com uma “desgramada” de uma “manete” de comando entre as pernas… que afastei o mais possível dela, durante toda a viagem (para não atrapalhar minimamente o comando da avioneta)… o piloto sentou-se no lugar de trás…
E lá fomos. A avioneta rolou na pista de Macia e… até rolar e parar na pista do Bilene… eu mal ousava esticar o pescoço para ir vendo os terrenos alagados que íamos sobrevoando…
E no Bilene tinha, claro, o “Pai-mais-querido-do-mundo” à minha espera.
Foi quando nos fotografaram para o Notícias.
Ele tinha sido o único pai que soubera do acidente na própria tarde do dia anterior, porque, estando de serviço em Lço. Marques, tinha ido ao aeroporto esperar-me. Tinha sabido da queda do avião com os motores parados por falta de gasolina… e só nessa manhã soubera que estávamos todos bem. Passara uma noite atroz!
Viemos de carro do Bilene para Lço. Marques. Dois dias depois estava de cama com uma crise valente de paludismo, que “graças-a-Deus” foi rápida e eficazmente debelada só com uma semanada de cama.
César Morais 2007
Fui buscá-la ao Blog da Luísa Hingá, para onde lha enviara há tempos.
Blog Voando em Moçambique
Estavam a acabar as férias. Recomeçavam as aulas no Liceu 5 de Outubro, o único em todo o Moçambique, na época. Tínhamos de voltar a abalar para Lço. Marques.
Eu voltava, uma vez mais, para casa do Sr. Abrunhosa, na 24 de Julho, nº 49.
O dia do “embarque”, no aeroporto de Quelimane estava marcado com antecedência. O tempo estava a pôr-se chuvoso, o que era “chato” para se andar de avião. Já tínhamos feito 4 vezes aquela viagem entre Quelimane e Lço. Marques. Sempre que íamos para, ou vínhamos, das aulas. A distância não permitia outro meio de transporte.
A DETA tinha uns aviões pequenos, que “dançavam” muito nos “poços-de-ar” e, faziam muito “mais esforço” a subir e a descer… Qual seria o que nos iria calhar desta vez?
Bom. Este avião vinha do Norte, de Nampula, já com alguns estudantes e, seguiria connosco, reco-lhendo mais alguém na Beira e, se calhasse... em Inhambane também.
Chegara o dia. Lá fomos para o aeroporto (era o “aeroporto velho” ainda). Estávamos lá todos, no bulício habitual destas chegadas e partidas. Os passageiros mais as famílias e amigos… mais os que por profissão a isso eram obrigados… e, vários curiosos. Havia uma série de coisas para fazer, antes de “embarcar”. Meu pai foi tratar disso.
Chegou algum tempo depois, mas... para dizer que o avião tinha chegado com uma avaria e que estavam a tratar disso…
-“Bolas! Ir num avião que acabava de chegar, avariado!!!!... Não me senti especialmente feliz com a notícia.”
Bom… o pior é que passada cerca de uma hora, nos vieram dizer que a avaria exigia uma peça nova, e que ela teria de vir de Lço. Marques… pelo que o voo ficava adiado.
Uf!... Pelo menos já não íamos naquele dia! Com uma avaria remediada, se calhar, à pressa!...
Voltámos para casa… mais uns dias de férias… Bestial!...
Dois ou três dias depois, com céu meio encoberto… lá voltámos ao aeroporto…
Desta vez era para valer mesmo. A peça tinha chegado e até tinha vindo com ela um Engenheiro da DETA, para corrigir a situação. Ele regressava a Lço. Marques connosco.
- “Todos a bordo!”
Fiquei sentado no último banco cá atrás, do lado direito da cabine… o único duplo. Mas fiquei junto à janela, donde podia ver tudo lá para baixo pois ficava atrás da asa direita. Ao meu lado ficou sentado um “miúdo”, também estudante, cujo nome e proveniência já me não recordo… e também, o tal Engenheiro da DETA.
Hoje ao ver uma réplica do Junker no Portugal-dos-Pequenitos em Coimbra… admira-me o quão pequeno era aquele avião… e como era pequena a cabina e acanhados os lugares para os passageiros. Na altura achei-o, com prazer… um avião bem grande, com uma cabina bem espaçosa… comparando-o com os outros em que já fizera aquela viagem antes… É giro ver como são diferentes as perspectivas, de acordo com as transformações que nós próprios vamos sofrendo!...
No banco à minha frente sentou-se a D. Ana do Chinde (que só agora fiquei a conhecer, ao ler o extracto do livro do Comandante Faria Peixoto). Vinha com uma perna engessada (provavelmente partida…) e que ajeitou ao lado do banco à sua frente. Era mesmo uma pessoa alegre e comunicativa.
Levantámos voo e seguimos viagem, impecavelmente, com bom tempo e, rapidamente estávamos acima daquelas grandes nuvens muito brancas e resplandecentes ao sol, desenhando aqui e ali formas variadas, com pequenos nichos de sombra, a dar-lhes aquela perspectiva tridimensional maravilhosa. Voávamos dentro de um pequeno-grande mundo virtual… que estava mesmo ali!
Parámos na Beira. Sempre uma delícia sair do avião!... Muito melhor do que quando entramos… Terra firme!... vida e movimento!... O calorzinho de “lá-de-fora”!... andar, ver e contactar com pessoas e paisagens diferentes…
Voltámos ao voo, a caminho de Lço. Marques… das aulas… das jogatanas muito disputadas ao berlinde, nos intervalos… dos jogos do “paulito” na Rua Coronel Galhardo por trás da 24 de Julho, com a “malta” (o Manel – Cara-Suja, o Rodrigo Tudela, o Nuno Revés, e às vezes outros que se nos juntavam) … das cowboiadas nas matinés de sábado no Scala, à borla, naquela “nossa” fila do balcão, com direito a filme duplo, mais um episódio do Super-Homem, mais aquele batido de sorvete e coca-cola na Socigel, naquela esquina para onde corríamos no intervalo da matiné… (era uma fila atribuída aos Cabaços e amigos – o Zé Luís Cabaço, o Manel Jorge, o Márito e a Nélita)…
Bom! Mas surpresa!... Estávamos a perder altura de forma controlada e íamos aterrar de novo!... Seria Inhambane?...
Era Mambone. Um aeroporto desactivado. Aterrava ali pela primeira vez. Bestial! Mais um aeroporto conhecido!... Era uma pequena pista (mal amanhada) e uma palhota grande, com espaços para as pessoas poderem estar… com bancadas de madeira… e um compartimento fechado, onde havia um telefone.
Tínhamos parado para que a tripulação ficasse a saber bem como estava o tempo entre Inhambane e Lço. Marques.
Havia um ciclone que se mantinha nessa zona. Ainda bem que o Comandante Nogueira tinha metido na Beira, gasolina em quantidade francamente superior à habitualmente necessária, pois iríamos ter assim, maior disponibilidade de recursos para enfrentar o mau tempo.
- “Tudo p'ró avião!”
E aos “tropeções” na pista de Mambone lá levantámos voo… (o último daquele Junker… que até tinha na altura, a mesma idade que eu… 11 anos).
O tempo estava magnífico… radioso…
… Bem à nossa frente! … De repente!... Desenhou-se o horrível!...
Uma enorme massa de nuvens cinzentas e negras… estendendo-se de horizonte a horizonte…em direcção às quais, estávamos inexoravelmente a voar…
Era nítida a diferença entre o espaço limpo, luminoso, ensolarado e rico daquelas nuvens, cúmulos majestosos, em que agora voávamos e aquela enorme massa cinzenta-negra, bem ameaçadora, em direcção à qual estávamos a avançar a grande velocidade.
Estamos tramados! Vai começar a “dança”! – pensei.
Os 3 motores do Junker mantinham a sua toada, ronronando de forma uniforme… a que já nos habituáramos…
Bom! Começou! Entrámos nas nuvens negras! O avião começou logo a sacudir-se… a abanar… e começaram os malditos poços-de-ar…de vez em quando lá tínhamos aquelas quedas-desamparadas… para logo depois ficarmos pregados nos lugares com o avião a retomar a altitude a toda a força dos seus três possantes motores da Junker.
Sentimos o avião a lutar para subir acima daquela massa de nuvens ameaçadoras… Continuavam as sacudidelas, abanões e poços-de-ar… mal saíamos de um, caíamos logo noutro!...
As pessoas começaram a enjoar e a vomitar nos respectivos sacos, que depois punham nas redes por cima das cabeças, já fechados e cheios.
Alguém precisou de ir ao WC, um pouco atrás do nosso banco… quando de lá saiu ficou um rasto algo mal-cheiroso… que acabou por passar…
O avião não conseguiu (ou não quiseram forçá-lo a isso) sobrepor-se às nuvens do ciclone, e à alti-tude a que voávamos viam-se em baixo, só copas-de-árvores-enormes e… água. Os terrenos que sobrevoávamos já estavam encharcados com aquela chuva ciclónica.
Lembro-me de pensar como seria bom que aterrássemos depressa para que aquilo tudo acabasse. Estávamos, de repente, todos exaustos de tanto abanão… de tanta tensão, com aquelas quedas bruscas e subidas também bruscas…
De repente!
- “Rezem meus filhos que vamos morrer! Avé Maria, cheia de Graça…”
A D. Ana do Chinde, mesmo à minha frente soltara este grito, começando logo a rezar… e nós todos a segui-la na oração e a responder-lhe alto nas – “Santa Maria, Mãe de Deus…”
Olhei de imediato para o meu motor (o da asa direita) e estava tudo bem. Foi quando consegui, apesar dos abanões, espreitar para o motor da esquerda… que percebi – estava parado!!!! Mas o Junker tinha 3 motores… O avião mantinha-se impecável no seu ímpeto selvagem a subir rapidamente quando recuperava de um poço-de-ar… os abanões e sacões eram os mesmos…
- “Santa Maria, Mãe de Deus…”
Pronto! Isto está mesmo mal! O motor da direita, ali mesmo a meu lado, “resfolegou”… ainda ten-tou… mas acabou também parado!!!... Como estaria o motor da frente?????
Também parara...
Aí vamos nós a planar… mas super-exaustos para pensarmos em alguma coisa… e anestesiados pela oração…
- “Avé Maria, cheia de Graça…”
Lá em baixo, agora mais nítido… era só água e copas-de-árvores… copas-de-árvores e água… chovia torrencialmente, relampejava e o avião sacudia-se numa “dança-maluca”…
- “Uiiiii!!!... Um poço-de-ar bem maior… em que o avião “parecia-que-se-tinha-dobrado-a-meio-e-descido-a-pique”… para endireitar-se depois… mas sem ter feito então, aquele potente esforço motorizado habitual para retomar a altitude…
- “ Santa Maria, Mãe de Deus…” Continuávamos todos a rezar. Tinham-nos mandado apertar os cintos. Nós naquele banco duplo, não os encontrámos. O Engenheiro fincou os pés na base do banco da frente e agarrou com força o meu companheiro, ao seu lado. A mim aconselhou-me que me segurasse ao ferro horizontal das costas do banco da frente e que baixasse a cabeça.
- Uiiii!!!... Mais uma vez aquele frio horrível na barriga, produzido por nova queda aparentemente a pique, devida a novo poço-de-ar e mais uma vez o avião a endireitar o nariz e a reequilibrar-se naquela barafunda infernal… mas sem voltar a ganhar altitude…
- “Ave Maria cheia de Graça…”
Já estávamos bem baixos… A aterragem estava eminente… Chovia torrencialmente… O avião sacudiu-se ao cortar os ramos de uns coqueiros e algumas árvores com as asas e os estabilizadores do leme e…
Buumm!...Buumm! Esssssssllslslsls!... Silêncio!...
Doía-me a cabeça à frente e atrás… das pancadas que terei dado no ferro do banco da frente…mas… de resto tudo bem! Logo apareceram os tripulantes com as caras ensanguentadas, com vários lenhos, escoriações e cortes… mas “completamente bem”!
Todos bateram as palmas e todos se levantaram a abraçar-se.
O Engenheiro com alguma dificuldade, pois escorregara e magoara uma perna debaixo do banco da frente do lado esquerdo da coxia central… a ponto de partir o banco. A D. Ana, com a sua perna engessada, escapara ilesa e fazia por se levantar e felicitar efusivamente os pilotos e todos. Estávamos todos bem!
O avião “sossegara” de vez! Lá fora só chuviscava e nem estava uma tarde muito escura!...
Com a violência do embate...os sacos com vómitos caíram de cima das redes e espalharam o con-teúdo por onde calhou. A porta do WC tinha-se partido… os cheiros misturaram-se e eram nauseabundos…
Vomitei! Por certo pelo cheiro… pelos nervos… pelo fim daquela tensão toda.
Abriram-se as janelas de emergência para ventilar… saíram os maus cheiros, mas entraram nuvens de mosquitos…
A porta do avião abriu, não sem alguma dificuldade.
Um ou dois dos tripulantes saíram, pois tinham avistado umas pessoas, por certo habitando ali por perto, que teriam presenciado a queda do avião. Mas voltaram sem terem encontrado ninguém, nem habitações.
Recolheram-se as bolachas, merendas e garrafas de água ou sumos que as pessoas levavam. À cautela.
Nós os miúdos, acomodámo-nos nos bancos em que vínhamos para não atrapalhar os movimentos e deliberações dos adultos. A noite caíu rápida. Acenderam-se candeeiros a petróleo para não gastar as baterias… necessárias para pedidos de socorro, pela rádio, na manhã seguinte.
Para os mosquitos da Lagoa Pati, em cujas margens tínhamos aterrado… estava a ser um festim… mas a cada palmada também matávamos aos seis ou sete de cada vez…
Os calções curtos e balalaica de manga curta que trazia… por mais que me enrolasse no meu canto do banco duplo… não me conseguiam livrar minimamente daquele feroz bicho da selva africana.
Os grilos, as rãs e a restante bicharada da zona, ia enchendo a noite de ruído… mas ruído do bom… ruído bem terrestre e conhecido… que nos encantou.
Olá! Estavam umas luzes lá fora a aproximarem-se de nós! Alguém vinha ter connosco!
Era um professor, regente escolar, de uma Escola próxima, que tinha sido alertado pelas tais pes-soas que tinham presenciado a queda do avião, e que já tinha enviado “estafetas” a comunicar a nossa situação e localização à Administração de Macia.
E… Maravilha! Trazia leite e chá quentes, em garrafas térmicas, e mandioca cozida (sem sal). Coube a cada um de nós uma chávena de leite quente (e chá se quisesse), e duas mandiocas cozidas. Huum!... Uma delícia!... Mesmo sem sal…
Tudo na maior!... Se não fossem os mosquitos…
Dormimos o que pudemos.
Madrugada bem cedo chegaram 3 a 4 Jeeps que desceram a mata até bem perto do avião, com pessoas da Administração de Macia, com mais leite e chá quente, pão, bolos e bolachas… Ninguém passou fome mesmo…
Agora é que podíamos ver bem o avião. Só tinha os estabilizadores do leme da cauda esfrangalha-dos. O trem de aterragem, partido no primeiro e estrondoso embate, tinha ficado uns 100 metros atrás…o avião tinha deslizado “de barriga”… e parado a outros 100 metros das primeiras árvores em frente… Perícia do Comandante Álvaro Nogueira e... Milagre para todos!...
A caravana partiu aliviada e bem disposta para Macia. A Esposa do Administrador e as outras Senhoras tinham preparado um “lanche-almoçarado” volante, em grandes mesas. Comemos e bebemos refrigerantes e sumos à vontade.
- “Quem é o estudante António César Morais?...”
- “Sou… eu! Disse, admirado…
- “Venha daí, que vai ser o primeiro a ser evacuado! A avioneta já está pronta!
- “Mas… eu? … Porquê?... Assustei-me… (Avioneta!!! NÃO!!! Eu NÃO!!! De avião outra vez!!!!? Não! Não!... Mas que fazer para o evitar????)
- “Sim. O seu pai está no aeródromo do Bilene, à sua espera e pediu-nos para que fosse o primeiro a ir.”
- Mas… de avião?!!!...
- “Sim. O ciclone cortou a estrada entre Macia e o Bilene. Está tudo inundado. Tem de ser de avio-neta.”
Enfiaram-me um enorme casacão de couro, que me tapava até aos pés, e um capacete também de cabedal, de aviador, com óculos de protecção (daqueles antigos)… Bom até já me estava a sentir vaidoso com aquela fardeta, a sério, de aviador…
Sentei-me no lugar da frente, amarrado com vários cintos de segurança… com uma “desgramada” de uma “manete” de comando entre as pernas… que afastei o mais possível dela, durante toda a viagem (para não atrapalhar minimamente o comando da avioneta)… o piloto sentou-se no lugar de trás…
E lá fomos. A avioneta rolou na pista de Macia e… até rolar e parar na pista do Bilene… eu mal ousava esticar o pescoço para ir vendo os terrenos alagados que íamos sobrevoando…
E no Bilene tinha, claro, o “Pai-mais-querido-do-mundo” à minha espera.
Foi quando nos fotografaram para o Notícias.
Ele tinha sido o único pai que soubera do acidente na própria tarde do dia anterior, porque, estando de serviço em Lço. Marques, tinha ido ao aeroporto esperar-me. Tinha sabido da queda do avião com os motores parados por falta de gasolina… e só nessa manhã soubera que estávamos todos bem. Passara uma noite atroz!
Viemos de carro do Bilene para Lço. Marques. Dois dias depois estava de cama com uma crise valente de paludismo, que “graças-a-Deus” foi rápida e eficazmente debelada só com uma semanada de cama.
César Morais 2007
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Histórias de um passado em Moçambique
Histórias de um passado em Moçambique - "Aterragem Forçada" (versão Cmdt.Faria Peixoto)
Também me parece interessante ouvir este relato de um camarada da D.E.T.A...
Mas com o meu colega, o Comandante Álvaro Nogueira, da D.E.T.A. deu-se um acidente de uma categoria à parte.
É um desses casos que ilustra do que um homem é capaz, quando perde o domínio da máquina.
Foi um Junker, um avião que depois de carregado pesa bem mais que dez toneladas. Era a altura da abertura das aulas no Liceu de Lourenço Marques e iam quinze estudantes e uma senhora, a D. Ana do Chinde, muito conhecida pela sua coragem e desenvoltura na vida.
Voavam da Beira para Lourenço Marques e o vento sul soprava fortíssimo. Começaram a aparecer nuvens negras, mas isso pouco afectava um bicho daqueles. O avião foi subindo, subindo, até que atingiu a altitude ideal para fazer o seu voo. Continuou, mas qualquer coisa de grave estava para acontecer.
A tempestade começou a tomar proporções assustadoras.
Ao fim de três horas, quando devia estar já próximo de Lourenço Marques, o avião era terrivelmente sacudido e quase que havia pânico a bordo. O Nogueira, através de azimutes constantes verificou que sofrera uma deriva extraordinária para a direita. Corrigiu o rumo e continuou na esperança de depressa alcançar Lourenço Marques. Mas ao fim de mais uma hora verificaria que se encontrava ainda muito distante.
O Junker é um avião bastante grande. Parece uma caixa e é muito vagaroso, de maneira que quan-do o vento lhe pega, é um instante enquanto o coloca numa posição que a gente não quer. Foi o que aconteceu. o avião devia estar muitíssimo à direita e então o Nogueira resolveu rodar noventa graus à esquerda do rumo que segui, pois quando baixasse teria o mar à sua frente sem obstáculo nenhum.
O tempo foi passando e andavam já no ar há perto de cinco horas. Vento fortíssimo e traiçoeiro conduzira para uma situação desesperada. Então, resolveu descer, e não tinha iniciado a decida há muito, quando os motores pararam. Três motores! Ele sentiu-se perdido. Quase, porque um piloto quando tem fibra, nunca se sente perdido.
E era um casarão enorme a vir por ali abaixo, sem apelo nem agravo. Tinha mesmo que vir. A chuva e o vento fustigavam-no numa sinfonia terrível.
Dizia-me mais tarde o Nogueira que só via chuva, relâmpagos e ouvia o avião a bufar. É que quando um avião vinha lá das alturas, naquelas circunstâncias, com a diferença rápida nas densidades da atmosfera, os nossos ouvidos sentem o avião bufar mesmo. Toda a atenção do piloto se concentrou para que, logo que visse terreno, fosse de que espécie fosse, meter lá a máquina, sabendo de antemão que a partia mesmo, mas tentando safar os seus passageiros.
E safou-os! De repente, já muito baixo, a razar o chão, viu água numa lagoa, à beira-mar, que tinha uma margem formidável e que recebeu o avião de braços abertos. Descoberto aquilo, foi meter um pé no pedal, o avião deslizou de lado, endireitou-o, perdeu a velocidade, bateu com a cauda num cajueiro - onde ficou - e bateu pesadamente à frente, jé em terreno firme. O choque ainda foi grande e o avião ficou inutilizado. Estava apenas a vinte minutos de Lourenço Marques. A miudagem tinha antes sido bem amarrada nos seus lugares, mas houve uma tal de Malicha, que era uma miúda levada da breca, que tinha desapertado o cinto por sua alta recreação. No momento da aterragem voou por cima das cadeiras todas, de unhas abertas e foi cravá-las em desespero no pescoço e braços de uma colega, Fernanda Marçal, que ia bem à frente.
Foram as únicas que tiveram ferimentos. Os tripulantes Nogueira, José Rodrigues e Trancoso, como tiveram de encarar de frente a situação por que passavam, foram dar as respectivas caras bem naquele imenso tablier e lábios inchados e arranhões não lhes faltaram.
Mas tudo correra bem. Passaram depois uma noite diabólica ali ao pé da lagoa, onde os mosquitos zumbiam aos milhões. Pela madrugada vieram socorros. Alguém dera pelo que se passara e foi à Administração mais próxima avisar. Foram todos transportados de carro até Lourenço Marques e aí seria a Rádio a tirar partido do acontecimento sensacional. As miúdas foram entrevistadas e teceram elogios formidáveis ao piloto. A D. Ana do Chinde, então exuberante como era e contente como estava por se safar daquela, dizia: "Só a este belo pessoal da D.E.T.A. se deve não ter havido desastre fatal! Todos devemos a vida ao sangue frio e à pericia do Comandante Nogueira!" Quando chegou a vez deste falar, foi pior.
O locutor procurava tirar o máximo partido da situação, perguntando-lhe quais as suas reacções naqueles momentos terríveis, com os motores parados ainda no meio do temporal, e se ele tivera esperanças de não matar toda aquela gente, Então ele, Nogueira, deve ali mesmo ter recordado os maus momentos por que passou e deve ter sentido o tal nó na garganta. Sentiu uma emoção grande e só disse: "Tivemos sorte!" As lágrimas rolaram pela cara abaixo e não pôde dizer mais nada.
Ele portara-se à altura!
.......................Cmdt.Faria Peixoto)............
enviado por: César Morais
Mas com o meu colega, o Comandante Álvaro Nogueira, da D.E.T.A. deu-se um acidente de uma categoria à parte.
É um desses casos que ilustra do que um homem é capaz, quando perde o domínio da máquina.
Foi um Junker, um avião que depois de carregado pesa bem mais que dez toneladas. Era a altura da abertura das aulas no Liceu de Lourenço Marques e iam quinze estudantes e uma senhora, a D. Ana do Chinde, muito conhecida pela sua coragem e desenvoltura na vida.
Voavam da Beira para Lourenço Marques e o vento sul soprava fortíssimo. Começaram a aparecer nuvens negras, mas isso pouco afectava um bicho daqueles. O avião foi subindo, subindo, até que atingiu a altitude ideal para fazer o seu voo. Continuou, mas qualquer coisa de grave estava para acontecer.
A tempestade começou a tomar proporções assustadoras.
Ao fim de três horas, quando devia estar já próximo de Lourenço Marques, o avião era terrivelmente sacudido e quase que havia pânico a bordo. O Nogueira, através de azimutes constantes verificou que sofrera uma deriva extraordinária para a direita. Corrigiu o rumo e continuou na esperança de depressa alcançar Lourenço Marques. Mas ao fim de mais uma hora verificaria que se encontrava ainda muito distante.
O Junker é um avião bastante grande. Parece uma caixa e é muito vagaroso, de maneira que quan-do o vento lhe pega, é um instante enquanto o coloca numa posição que a gente não quer. Foi o que aconteceu. o avião devia estar muitíssimo à direita e então o Nogueira resolveu rodar noventa graus à esquerda do rumo que segui, pois quando baixasse teria o mar à sua frente sem obstáculo nenhum.
O tempo foi passando e andavam já no ar há perto de cinco horas. Vento fortíssimo e traiçoeiro conduzira para uma situação desesperada. Então, resolveu descer, e não tinha iniciado a decida há muito, quando os motores pararam. Três motores! Ele sentiu-se perdido. Quase, porque um piloto quando tem fibra, nunca se sente perdido.
E era um casarão enorme a vir por ali abaixo, sem apelo nem agravo. Tinha mesmo que vir. A chuva e o vento fustigavam-no numa sinfonia terrível.
Dizia-me mais tarde o Nogueira que só via chuva, relâmpagos e ouvia o avião a bufar. É que quando um avião vinha lá das alturas, naquelas circunstâncias, com a diferença rápida nas densidades da atmosfera, os nossos ouvidos sentem o avião bufar mesmo. Toda a atenção do piloto se concentrou para que, logo que visse terreno, fosse de que espécie fosse, meter lá a máquina, sabendo de antemão que a partia mesmo, mas tentando safar os seus passageiros.
E safou-os! De repente, já muito baixo, a razar o chão, viu água numa lagoa, à beira-mar, que tinha uma margem formidável e que recebeu o avião de braços abertos. Descoberto aquilo, foi meter um pé no pedal, o avião deslizou de lado, endireitou-o, perdeu a velocidade, bateu com a cauda num cajueiro - onde ficou - e bateu pesadamente à frente, jé em terreno firme. O choque ainda foi grande e o avião ficou inutilizado. Estava apenas a vinte minutos de Lourenço Marques. A miudagem tinha antes sido bem amarrada nos seus lugares, mas houve uma tal de Malicha, que era uma miúda levada da breca, que tinha desapertado o cinto por sua alta recreação. No momento da aterragem voou por cima das cadeiras todas, de unhas abertas e foi cravá-las em desespero no pescoço e braços de uma colega, Fernanda Marçal, que ia bem à frente.
Foram as únicas que tiveram ferimentos. Os tripulantes Nogueira, José Rodrigues e Trancoso, como tiveram de encarar de frente a situação por que passavam, foram dar as respectivas caras bem naquele imenso tablier e lábios inchados e arranhões não lhes faltaram.
Mas tudo correra bem. Passaram depois uma noite diabólica ali ao pé da lagoa, onde os mosquitos zumbiam aos milhões. Pela madrugada vieram socorros. Alguém dera pelo que se passara e foi à Administração mais próxima avisar. Foram todos transportados de carro até Lourenço Marques e aí seria a Rádio a tirar partido do acontecimento sensacional. As miúdas foram entrevistadas e teceram elogios formidáveis ao piloto. A D. Ana do Chinde, então exuberante como era e contente como estava por se safar daquela, dizia: "Só a este belo pessoal da D.E.T.A. se deve não ter havido desastre fatal! Todos devemos a vida ao sangue frio e à pericia do Comandante Nogueira!" Quando chegou a vez deste falar, foi pior.
O locutor procurava tirar o máximo partido da situação, perguntando-lhe quais as suas reacções naqueles momentos terríveis, com os motores parados ainda no meio do temporal, e se ele tivera esperanças de não matar toda aquela gente, Então ele, Nogueira, deve ali mesmo ter recordado os maus momentos por que passou e deve ter sentido o tal nó na garganta. Sentiu uma emoção grande e só disse: "Tivemos sorte!" As lágrimas rolaram pela cara abaixo e não pôde dizer mais nada.
Ele portara-se à altura!
.......................Cmdt.Faria Peixoto)............
enviado por: César Morais
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Histórias de um passado em Moçambique
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Sardinhada - Festas de São Pedro
Caros amigos e sócios
Estamos em época de Santos Populares e os convívios sucedem-se.
Na Acrenarmo também iremos festejar o São Pedro com uma sardinhada e com musica para animar.
A entrada é de apenas 1,5€ com oferta de uma bebida.
Gratuito para crianças até aos 10 anos.
As sardinhas irão estar na brasa para a deliciar o pessoal.
Junta-te a nós para uma noite bem passada onde a musica irá estar presente para um pé de dança.
O local, é na nossa sede, pelas 17,00h +-, no pátio da sede e o castelo irá estar lá em cima a observar-nos.
Não faltes! Vai ser muito bom!
Até Sábado
--
ACRENARMO-Associação Cultural e Recreativa dos Naturais e Ex-Residentes de Moçambique
Largo de São Pedro – 2400–035 LEIRIA
Tel. 244 835 788
acrenarmo@gmail.com
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Actividades,
Convívios,
Divulgação
terça-feira, 22 de junho de 2010
Histórias de um passado em Moçambique - "Sou Feliz"
Sou Feliz
Sou Feliz porque nasci em Inhambane
porque Inhambane é o meu chão
porque é a Terra da Boa Gente
e Terra da Boa gente significa na Língua Gitonga "entra para dentro de casa"
convite que os habitantes fizeram aos portugueses que ali aportaram
para se resguardarem da chuva e Camões canta em "Os Lusíadas
porque a minha Língua é a Língua Portuguesa
porque a Língua Portuguesa me deu uma Pátria
porque chapinhava nas águas da chuva ao sol e ao vento
porque depois apanhava filária tratada com cortes de lâmina e banhos de águas de plantas africanas colhidas no mato
porque apanhava matacanhas curadas com cinza quente depois de tiradas com um alfinete por desinfectar
porque andava descalça na areia a ferver sem me importar com os picos bem afiados
porque comia mangas verdissimas que provocavam febrões a valer
porque comia comia jambolão ,cigoma,zirriva,maçãzinhas ,moranguinhos bem maduros da ganga ou verdes com peixe
porque saltava o muro das minhas vizinhas "nunos"que me davam linfete e bolinhos de coco
porque fui mãe de cinco filhos todos amamentados com chá de ganga ,amargo como fel que me punha os seios como cabaças
porque assim tinha leite com fartura sem que beber cerveja preta que detestava
porque deste modo o leite nem encaroçava os seios
porque durante seis anos guiei à revelia
porque fui criada entre africanos com quem joguei à bola e fugia para a praia à cata dos caranguejos verdes
porque sou do tempo do xitimela até Inharrime para aí se apanhar uma camioneta "o tornicrofe"semelhante a uma carrinha celular todinha em ferro e com janelinhas no topo para aliviar o calor dos viajantes
porque fui aluna do Colégio das Freiras Franciscanas onde aprendi Francês a sério com uma freira educada no Sacré Coeur em França
porque sou do tempo do XINKWERRENGUE aos sábados onde os brancos iam dançar com as meninas da cor do ébano à socapa da família tranquila em casa
porque o meu molungo engenheiro ,um agnóstico ferrenho mas um humanista de verdade nunca levou uma quinhenta pelos projectos para igrejas,mesquita ,escolas,colégio,maternidades ,poços para os africanos ,maternidades
porque tive um pai de "letras gordas"que no primeiro dia que dei aulas me disse para nunca me esquecer que nascera num país de muitas raças e religiões e pelo facto de ser branca não tinha o direito de me impor ,mas respeitar as diferenças
porque tive uma mamana que me criou e só queria que a sua "sanana "viesse para o xilunguine dos brancos de primeira
porque o cipaio Geremias me adorava e não dizia à minha mãe que estava num galho a comer amendoas vermelinhas cheias de fios saborosos
porque fisgava as galas galas de cabeça azul a passarinharem pelos muros
porque cada filho plantou uma árvore
porque o mainato Júlio corria pelo quintal com o meu filho para respirar nos acessos de tosse convulsa
porque em Inharrime há poços de petróleo selados desde 1948 pela Golf Oil
porque fartei -me de ver pombos verdes a esvoaçar de coqueiro em coqueiro no Mocucune
porque sou branca de segunda classe
porque fui professora de alunos que hoje ocupam cargos políticos no Moçambique Moderno
porque tenho paludismo crónico que de tempos a tempos me dá noticias
porque vi tubarões velozes ,dugongos,peixes voadores,peixes sapos ,magajojos a espichar ranhecas sempre que pisados armados em espertalhões para não serem caçados
porque comi maningue mandioca torrada e cozida ,matapa,bagias maningue chamussas ,casquinhas de caranguejo ,linfete ,torradinhas de sura ,coco lenho com acúcar ,castanha de cajú a estalar debaixo de uma chapa de zinco
porque as minhas amigas eram brancas,pretas,mulatas e mussulmanas
porque andei de batelão ao ritmo da "Maria Tereza zikuta
porque os madalas e cocoanas eram respeitados
porque o meu filho mais velho não fez aquela guerra inútil que só serviu para mutilar corpos e almas
porque vivo num país onde toda a gente ralha e com razão
porque nunca fui uma" burguesa empatée"
porque o artigo 4ºdos acordos se esqueceu de "respeitar bens e pessoas"e aprendi a comer o pão que o diabo amassou
porque tive a capacidade de sobreviver à marginalização
porque fui conotada como "colonialista"sem o ser
porque este País aprendeu a lição e lutou com garra pela causa de Timor
porque ainda viajei na frota colonial por mares nunca dantes navegados
porque este país continua a ser um País "mais desvairadas gentes"
porque sei onde fica a Ponte Salazar
porque também sei cantar "Vila morena"
porque prezo o respeito pela instituição ESCOLA como fonte do SABER
porque ainda tenho respeito por valores humanos
porque revisitei INHAMBANE onde fui carinhosamente acolhida
porque visitei "pertenças minhas "com estoicismo
porque nada posso fazer pela mediocridade ,nem pelos pavões de brutas bombas .
Sou realmente feliz por estar viva ,sã e ser uma avó de netos que me amam
SOU REALMENTE FELIZ.
Maria Fernanda de Sá Pires
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Histórias de um passado em Moçambique,
Saudades
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Histórias de um passado em Moçambique - "MÃE ÁFRICA"
MÃE ÁFRICA
QUE FAZER DE TANTA SAUDADE
VENTOS PRA LONGE ME TROUXERAM
VIDAS SEM FIM SILENCIARAM.
QUE FAZER DE TANTA SAUDADE
PRECISO ESTAR PERTO DE TI
PRA CUIDARES OUTRA VEZ DE MIM.
Ó MÃE ÁFRICA
COBRE ESTE FRIO TIRITANTE
BEBE AS LÁGRIMAS QUENTES
CALA SOLUÇOS ASFIXIANTES
SOU UM BARCO SOBRE O TEU AZUL
GAIVOTA DE OLHOS FECHADOS
FAROL EM VOO FINAL.
MÃE ÁFRICA
QUE FAZER DE TANTA SAUDADE
DOS LABIRINTOS SOLITÁRIOS
ESTRELADOS,CHORADOS,MAGOADOS.
MARIA FERNANDA DE SÁ PIRES
Exmos Srs
Aqui vai um poema sobre Moçambique para o vosso desafio literário dirigido a ex-residentes ou naturais de Moçambique. Espero que seja uma boa contribuição para divulgar a nossa terra e transmitir aos outros o que ela tem de especial.
Bem hajam
Mª Fernanda
Exmos Srs
Aqui vai um poema sobre Moçambique para o vosso desafio literário dirigido a ex-residentes ou naturais de Moçambique. Espero que seja uma boa contribuição para divulgar a nossa terra e transmitir aos outros o que ela tem de especial.
Bem hajam
Mª Fernanda
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Histórias de um passado em Moçambique,
Poesia
Kanimambo Moçambique
Kanimambo Moçambique
Kanimambo…
Pelas maravilhosas recordações
Que bem gravadas foram ficando
Cá dentro dos nossos corações…
Kanimambo…
Pelo fantástico espectáculo sedutor
Que nossos olhos se deleitaram
Com as fabulosas acácias em flor…
Kanimambo…
Pelo cheirinho a terra molhada
Com a chuva da madrugada
Ao som do estrondear da trovoada…
Kanimambo…
Pelas frutas tropicais de singular sabor
Como as belas tangerinas de Inhambane
Ou os sumarentos cajus de avermelhada cor…
Kanimambo…
Pelo gostinho de uma manga com sal
Pelas “tsintshivas”, hum! … que saudades
Pela água de coco tão divinal…
Kanimambo…
Pelas deliciosas maçarocas assadas
Que comprávamos em qualquer rua
Bem quentinhas, estaladiças e douradas…
Kanimambo…
Por aquele marisco sem igual
Pelo sabor duma gelada “Laurentina”
Por toda esta dádiva substancial…
Kanimambo…
Pelo Bazar, onde o cheiro das frutas
Dos legumes, do peixe e das especiarias
Se misturava com a algazarra das labutas...
Kanimambo…
Pela beleza do cantar dos xiricos
Pela ternura dos macacos do Parque de Campismo
Que nos roubavam os chocolates… que mafarricos…
Kanimambo…
Pelo enorme privilégio
De neste paraíso ter nascido
Me sinto como um ser egrégio…
Kanimambo…
Pela vivacidade do olhar daquelas crianças
Com as bocas escancaradas a rir
Traz-me à mente tantas lembranças…
Kanimambo…
Pela alegria das exóticas “tombazanas”
Carregando às costa seus rebentos
Envoltas em garridas “capulanas”…
Kanimambo…
Por tantas manhãs de Domingo
Passadas nessas idílicas praias
Jogando futebol, convivendo e se abrindo…
Kanimambo…
Pelas cores do esplendoroso sol africano
Pelas praias de tão transparentes águas
Pelas areias brancas junto ao Índico oceano…
Kanimambo…
Por aquela imagem do “4 Estações”
Que recordo com muita saudade
E ficará na memória de várias gerações…
Kanimambo…
A todos que ajudaram a construir
A mais linda cidade de África
Que jamais deixará de nos atrair…
Pela muita alegria, emoção e felicidade
Por um respeitoso e saudável despique
Aqui eu digo com sincera humildade:
KANIMAMBO MOÇAMBIQUE
Luís Pestana
Setembro 2009
Nota: Escrevi estes versos, inspirados a partir de um e-mail, em prosa, que recebi de uma ilustre desconhecida, que dá pelo nome de BELITA, datado de Março de 2009!
Kanimambo…
Pelas maravilhosas recordações
Que bem gravadas foram ficando
Cá dentro dos nossos corações…
Kanimambo…
Pelo fantástico espectáculo sedutor
Que nossos olhos se deleitaram
Com as fabulosas acácias em flor…
Kanimambo…
Pelo cheirinho a terra molhada
Com a chuva da madrugada
Ao som do estrondear da trovoada…
Kanimambo…
Pelas frutas tropicais de singular sabor
Como as belas tangerinas de Inhambane
Ou os sumarentos cajus de avermelhada cor…
Kanimambo…
Pelo gostinho de uma manga com sal
Pelas “tsintshivas”, hum! … que saudades
Pela água de coco tão divinal…
Kanimambo…
Pelas deliciosas maçarocas assadas
Que comprávamos em qualquer rua
Bem quentinhas, estaladiças e douradas…
Kanimambo…
Por aquele marisco sem igual
Pelo sabor duma gelada “Laurentina”
Por toda esta dádiva substancial…
Kanimambo…
Pelo Bazar, onde o cheiro das frutas
Dos legumes, do peixe e das especiarias
Se misturava com a algazarra das labutas...
Kanimambo…
Pela beleza do cantar dos xiricos
Pela ternura dos macacos do Parque de Campismo
Que nos roubavam os chocolates… que mafarricos…
Kanimambo…
Pelo enorme privilégio
De neste paraíso ter nascido
Me sinto como um ser egrégio…
Kanimambo…
Pela vivacidade do olhar daquelas crianças
Com as bocas escancaradas a rir
Traz-me à mente tantas lembranças…
Kanimambo…
Pela alegria das exóticas “tombazanas”
Carregando às costa seus rebentos
Envoltas em garridas “capulanas”…
Kanimambo…
Por tantas manhãs de Domingo
Passadas nessas idílicas praias
Jogando futebol, convivendo e se abrindo…
Kanimambo…
Pelas cores do esplendoroso sol africano
Pelas praias de tão transparentes águas
Pelas areias brancas junto ao Índico oceano…
Kanimambo…
Por aquela imagem do “4 Estações”
Que recordo com muita saudade
E ficará na memória de várias gerações…
Kanimambo…
A todos que ajudaram a construir
A mais linda cidade de África
Que jamais deixará de nos atrair…
Pela muita alegria, emoção e felicidade
Por um respeitoso e saudável despique
Aqui eu digo com sincera humildade:
KANIMAMBO MOÇAMBIQUE
Luís Pestana
Setembro 2009
Nota: Escrevi estes versos, inspirados a partir de um e-mail, em prosa, que recebi de uma ilustre desconhecida, que dá pelo nome de BELITA, datado de Março de 2009!
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Histórias de um passado em Moçambique - "Nunca mais me chames mano"
Há muito, muito tempo (mas, que raio, isto não me é estranho …, deve ser da velhice!), conheci em Lourenço Marques [isto de maputices – vamos deixar para quem de direito], uma das mais belas criaturas (seres criados, reais, que existiram, não faziam parte dum delírio), mas onde tive a oportunidade de tocar, de cheirar {cheirava a côco}, e que fez desabrochar em mim uma grande e única paixão (chiu, não digam a ninguém, senão temos milando), mas – e é sempre a mesmíssima e repetida questão do “MAS”, começou a tratar-me por MANO. Ela: mano pra qui, mano pra li; Eu: raio que o parta o mano. E esta coisa do mano não deixava a diligência levar o postilhão (correio em linguagem arcaica – é que eu também já sou arcaico, eheh eheh) à boa morada.
Eu nessa altura estava na guerra (isto foi lá por volta de 1972/3 – não sei se sabem que Portugal estava em guerra para proteger um território que não era nosso mas que fazia de conta que era e muita malta minha amiga morreu, e outra malta porreira [quando a gente morre somos todos porreiros] também morreu e depois houve uma reunião em Luzaca e pimba o melhor era cavar dali pra fora……….), fazia parte duma companhia de Comandos (não posso dizer a qual, não vá o inimigo descobrir e descodificar a mensagem e sermos localizados e pimba, chuva de morteirada – linguagem corriqueira nesse tempo), e eu só pensava nela, de dia e de noite era ela que invadia constantemente a minha pobre mente. De tal forma que nem o barulho das morteiradas e dos canhões sem recuo (umas armazinhas que se apanhassem a gente em fila matavam logo a fila toda – parece-me que era por uma questão de economia), me incomodavam. Mas ela continuava com o mano e eu desesperado, e ela contestando: “quizas, quizas, quizas” (Nat King Cole).
Deu-se a revolução dos cravos (flor - (Dianthus caryophyllus) e não o nome que se dá aos pregos usados nas ferraduras dos cavalos, nem o cravo, tipo de afecção da pele), e a mulher dos meus sonhos – no verdadeiro e também no lato sentido da palavra (porque tanto sonhava com ela, acordado quanto a dormir), desapareceu.
Ela – A MANA, fugiu, perdeu-se num horizonte onde a eternidade me parecia irrisória e onde um dia se revestia de uma aparência profética.
Ficou comigo até hoje a dor enraizada na memória eidénica das minhas células fasciais, a mágoa de nunca ter tido a coragem de reverter os indícios e deixar que o postilhão tivesse chegado à boa morada.
O tempo passou, aquele rosto lindo, aquele sorriso sedutor, aquele cheiro a óleo de praia e aquele corpo que nunca pôde existir para além dum simples estrato onírico e de uma ténue esperança sonhada, ficou em mim, tal magma incrustado e calcinado, acabou por se sedimentar, mas nunca desapareceu.
Trinta e sete anos se passaram. De repente, do nada surge a magia da obra criada. O fantasma adormecido no berço do meu ser inerte faz erupção, emerge e perturba, atordoado tenho a impressão de acordar finalmente dum marasmo que nunca mais deixava de me perseguir. Uma mensagem dela – no facebook ®. És mesmo tu … sim, agora tenho a certeza, olhei para as tuas fotos e reconheci-te.
Ela encontrou-me. Como a vida tem estes paradoxos. Eu à procura e é ela que me encontra. Um percurso de trinta e sete anos onde tudo o que fiz e não fiz, tudo o que pensei e não pensei, dediquei, consciente ou inconscientemente, implícita ou explicitamente a esse cheiro que teimava em não me largar, a esse corpo que teimava em viver em mim, a esse riso que teimava em gargalhar aos meus ouvidos.
Precipitei-me como um adolescente (não é que não seja ainda um adolescente com 60 anos), e respondi à solicitação dela. Dei-lhe o meu email, o meu número de telemóvel, o nome do meu cão, do meu gato, tudo para ela me contactar logo e o mais rápidamente possível.
No dia seguinte ela ligou para mim. Chatice, das chatices, não podia responder. Estava o padre a falar (bla bla bla bla – amém) quando vejo um número desconhecido. Estava num enterro dum grande amigo meu.
Ao meu lado a esposa, nem sequer podia dizer, olha desculpa tenho de ir rapidamente à casa de banho porque parece que estou com uma diarreia. Não é que não pudesse, mas ali, naquele deserto de campas para onde todos nós caminhamos paulatinamente como lenires (lenir, mesmo que abrandar, suavizar, lenificar. Também é nome próprio (geralmente feminino), “eu espero, de coração, que todos tenham um lenitivo, para seus sofrimentos” (frase), onde é que eu ia? Ah, sim, vi o número e fiquei em pulgas (ansioso, com o coração a bater e a querer sair da caixa torácica), será o dela, mas este enterro nunca mais tem fim – “agora o Salmo ….”, “mais o Pai Nosso”, enfim, não tenho nada contra isso, antes pelo contrário, mas logo naquele momento, e o telefone vibrava, vibrava, vibrava, e eu também vibrava, vibrava, vibrava… de tal modo vibrava, que aquele corpo que sempre surgia no meu fantasma idealizado como algo de estável e de sólido, começou também a vibrar. Já nem conseguia mais idealizar esse ser magnifico de formas nunca dantes existentes (Camões? Cavaco Silva, Cristiano Ronaldo?), e essa figura lendária e romanesca, de repente parecia-me difusa, como se os olhos da minha mente estivessem embaciados, a inquietação transformou tudo aquilo ali numa utopia e acabei por me precipitar para o exterior e sentar-me dentro do meu carro para não ter nenhum enfarte no caso de ser mesmo verdade.
Liguei apressadamente, o telemóvel escorregou-me das mãos, eu voltei a tentar ligar de novo, era ela, aquela mesma voz, aquele mesmo sorriso, ela teve de repetir, sou eu, a … e aí eu disse-lhe todas as baboseiras que sempre tive vontade de dizer há trinta e sete anos atrás e nunca tinha tido coragem.
Ela ouviu sem saber bem o que dizer. Sorria às gargalhadas, aquelas gargalhadas que tanto me fizeram sonhar, que tantas lágrimas me fizeram perder e eu pedi-lhe, quase a implorar-lhe de joelhos – NUNCA MAIS ME CHAMES MANO!
Henrique Dos Martires
Eu nessa altura estava na guerra (isto foi lá por volta de 1972/3 – não sei se sabem que Portugal estava em guerra para proteger um território que não era nosso mas que fazia de conta que era e muita malta minha amiga morreu, e outra malta porreira [quando a gente morre somos todos porreiros] também morreu e depois houve uma reunião em Luzaca e pimba o melhor era cavar dali pra fora……….), fazia parte duma companhia de Comandos (não posso dizer a qual, não vá o inimigo descobrir e descodificar a mensagem e sermos localizados e pimba, chuva de morteirada – linguagem corriqueira nesse tempo), e eu só pensava nela, de dia e de noite era ela que invadia constantemente a minha pobre mente. De tal forma que nem o barulho das morteiradas e dos canhões sem recuo (umas armazinhas que se apanhassem a gente em fila matavam logo a fila toda – parece-me que era por uma questão de economia), me incomodavam. Mas ela continuava com o mano e eu desesperado, e ela contestando: “quizas, quizas, quizas” (Nat King Cole).
Deu-se a revolução dos cravos (flor - (Dianthus caryophyllus) e não o nome que se dá aos pregos usados nas ferraduras dos cavalos, nem o cravo, tipo de afecção da pele), e a mulher dos meus sonhos – no verdadeiro e também no lato sentido da palavra (porque tanto sonhava com ela, acordado quanto a dormir), desapareceu.
Ela – A MANA, fugiu, perdeu-se num horizonte onde a eternidade me parecia irrisória e onde um dia se revestia de uma aparência profética.
Ficou comigo até hoje a dor enraizada na memória eidénica das minhas células fasciais, a mágoa de nunca ter tido a coragem de reverter os indícios e deixar que o postilhão tivesse chegado à boa morada.
O tempo passou, aquele rosto lindo, aquele sorriso sedutor, aquele cheiro a óleo de praia e aquele corpo que nunca pôde existir para além dum simples estrato onírico e de uma ténue esperança sonhada, ficou em mim, tal magma incrustado e calcinado, acabou por se sedimentar, mas nunca desapareceu.
Trinta e sete anos se passaram. De repente, do nada surge a magia da obra criada. O fantasma adormecido no berço do meu ser inerte faz erupção, emerge e perturba, atordoado tenho a impressão de acordar finalmente dum marasmo que nunca mais deixava de me perseguir. Uma mensagem dela – no facebook ®. És mesmo tu … sim, agora tenho a certeza, olhei para as tuas fotos e reconheci-te.
Ela encontrou-me. Como a vida tem estes paradoxos. Eu à procura e é ela que me encontra. Um percurso de trinta e sete anos onde tudo o que fiz e não fiz, tudo o que pensei e não pensei, dediquei, consciente ou inconscientemente, implícita ou explicitamente a esse cheiro que teimava em não me largar, a esse corpo que teimava em viver em mim, a esse riso que teimava em gargalhar aos meus ouvidos.
Precipitei-me como um adolescente (não é que não seja ainda um adolescente com 60 anos), e respondi à solicitação dela. Dei-lhe o meu email, o meu número de telemóvel, o nome do meu cão, do meu gato, tudo para ela me contactar logo e o mais rápidamente possível.
No dia seguinte ela ligou para mim. Chatice, das chatices, não podia responder. Estava o padre a falar (bla bla bla bla – amém) quando vejo um número desconhecido. Estava num enterro dum grande amigo meu.
Ao meu lado a esposa, nem sequer podia dizer, olha desculpa tenho de ir rapidamente à casa de banho porque parece que estou com uma diarreia. Não é que não pudesse, mas ali, naquele deserto de campas para onde todos nós caminhamos paulatinamente como lenires (lenir, mesmo que abrandar, suavizar, lenificar. Também é nome próprio (geralmente feminino), “eu espero, de coração, que todos tenham um lenitivo, para seus sofrimentos” (frase), onde é que eu ia? Ah, sim, vi o número e fiquei em pulgas (ansioso, com o coração a bater e a querer sair da caixa torácica), será o dela, mas este enterro nunca mais tem fim – “agora o Salmo ….”, “mais o Pai Nosso”, enfim, não tenho nada contra isso, antes pelo contrário, mas logo naquele momento, e o telefone vibrava, vibrava, vibrava, e eu também vibrava, vibrava, vibrava… de tal modo vibrava, que aquele corpo que sempre surgia no meu fantasma idealizado como algo de estável e de sólido, começou também a vibrar. Já nem conseguia mais idealizar esse ser magnifico de formas nunca dantes existentes (Camões? Cavaco Silva, Cristiano Ronaldo?), e essa figura lendária e romanesca, de repente parecia-me difusa, como se os olhos da minha mente estivessem embaciados, a inquietação transformou tudo aquilo ali numa utopia e acabei por me precipitar para o exterior e sentar-me dentro do meu carro para não ter nenhum enfarte no caso de ser mesmo verdade.
Liguei apressadamente, o telemóvel escorregou-me das mãos, eu voltei a tentar ligar de novo, era ela, aquela mesma voz, aquele mesmo sorriso, ela teve de repetir, sou eu, a … e aí eu disse-lhe todas as baboseiras que sempre tive vontade de dizer há trinta e sete anos atrás e nunca tinha tido coragem.
Ela ouviu sem saber bem o que dizer. Sorria às gargalhadas, aquelas gargalhadas que tanto me fizeram sonhar, que tantas lágrimas me fizeram perder e eu pedi-lhe, quase a implorar-lhe de joelhos – NUNCA MAIS ME CHAMES MANO!
Henrique Dos Martires
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Histórias de um passado em Moçambique
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Festa dos Povos 2010
Festa dos Povos 2010
Uma iniciativa da AMIGRANTE
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O Centro Local de Apoio à Integração de Imigrantes-Leiria (Alto Comissariado para a Imigração) e a AMIGrante, têm o prazer de convidar V. Ex.ªs para a celebração do Dia de África no próximo dia 24 de Maio e para a "Festa dos Povos - 2010" a realizar no próximo dia 30 de Maio, conforme programa que segue.
Dia 24 de Maio
21h30 - Projecção do Filme "Bab Sebta" no Tetro Miguel Franco (filme para maiores de 16 anos)
entrada gratuita (bilhetes podem ser levantados na AMIGrante ou Teatro Miguel Franco)
Dia 30 Maio
14h30 – Celebração Inter-Confessional na Igreja do Espírito Santo (Leiria)
16h00 – Espectáculo InterCultural (Músicas e danças do Mundo, “Tendinhas” de artesanato, Arte Plástica, Gastronomia...) no Pátio do Mercado Santana (Leiria)
A Acrenarmo foi convidada, para representar Moçambique pela 2ª vez. Convite que muito nos honra e teremos muito gosto em estar presente. Iremos ter uma pequena banca, onde colocaremos a marca de Moçambique que se fará notar e dirá bem alto "KANIMAMBO". Venham conhecer-nos e disfrutar de uma festa com muita alegria.Dia 24 de Maio
21h30 - Projecção do Filme "Bab Sebta" no Tetro Miguel Franco (filme para maiores de 16 anos)
entrada gratuita (bilhetes podem ser levantados na AMIGrante ou Teatro Miguel Franco)
Dia 30 Maio
14h30 – Celebração Inter-Confessional na Igreja do Espírito Santo (Leiria)
16h00 – Espectáculo InterCultural (Músicas e danças do Mundo, “Tendinhas” de artesanato, Arte Plástica, Gastronomia...) no Pátio do Mercado Santana (Leiria)
Filme de cortesia: http://leiriaaminhacidade.blogs.sapo.pt/75379.html
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quinta-feira, 20 de maio de 2010
Histórias de um passado em Moçambique - O "Velho da viola",
Deveria andar pelos meus 10/11 anos......portanto aí pelos anos de 67/68...
A minha rua era fantástica! Uma rua sem saída onde moravam algumas famílias numerosas: os Larsen eram 8, entre os vinte, vinte e poucos e os 4 anos.....os Correia Mendes, com menos diferença de idades e adolescentes.....a minha mãe com uma ninhada de cinco mafarricos todos seguidos e mais umas quantas famílias com um/dois filhos.
Mas, só a família Larsen e nós já enchiamos aquela rua.........a minha querida Rua Alfredo Keil, em Lourenço Marques, oposta ao Hotel Santa Cruz na 24 de Julho e onde ficava o modesto e pequeno Restaurante Smarta que, por acaso nos aviava as marmitas todos os dias....
Aquela rua era mágica.....ou, pelo menos assim a recordo, pois o tempo tem este sortigélio de tornar delicioso, maravilhoso, misterioso até, o nosso passado longínquo,trasformando devargarmente em aguarelas suaves e nostáligicas, mesmo as coisas menos boas que pudéssemos ter vivido.
Ainda consigo ouvir a algazarra e bolício em que aquela rua se transformava ao fim da tade quando, já livres dos trabalhos de casa e outras demandas que as crianças naquele tempo sempre tinham, começavamos a encher a rua e a combinar jogar ao ringue, ao "aí vai alho"............ao paulito , ao berlinde e às escondidas ou ainda às batalhas campais num terreno abandonado ali por trás, mesmo junto às traseiras da Associação dos Naturais de Moçambique.
A salpicar estes fins de tarde alegres e barulhentos, por vezes, aparecia na avenida, um homem dos seus quarentas e tais a quem chamavamos o "velho da viola", cujos acordes, mesmo misturados com o barulho dos carros e da algazarra que fazíamos, sempre distinguíamos e nos fazia correr para a 24 de Julho atravessando para a faixa central em correria louca para podermos ficar o mais próximo possível do nosso "amigo" da viola.......
Ele sabia e gostava daquela criançada e ali ficava a tocar para nós, enquanto os seus bonecos, por si construidos, dançavam no chão pendurados por fios no braço da vilola....ele sabia fazer isso tão bem que pareciam pequenas pessoas de verdade e nós ríamos das piruetas e dos saltos que davam os bonecos de arames e paus, vestidos de trapos ......era um mestre aquele homem!
Um dia, postos estávamos neste delite que era sempre a aparição do nosso "amigo" quando, de repente, surgiu na faixa contrária em direcção ao Alto-Maé um jeep da Polícia Militar cheia de comandos que parou de repente saltando por cima do passeio central chiando ruidosamente os pneus, ao travar bruscamente. De dentro pularam, em completo estado de guerra, um monte de militares e desataram à bastonada ao nosso "amigo " da viola, sem dó nem piedade, para meu terror e espanto, fazendo-nos disparar em correia para o outro lado da avenida, onde ficámos a assistir incrédulos, sem saber o porquê daquele acto brutal, cruel e desumano.
O nosso amigo foi arrastado para dentro do jeep que, assim como surgiu, despareceu na avenida passando mesmo o sinal vermelho.
Ainda hoje recordo esta cena com uma tristeza imensa......um pesar e uma revolta enormes, pois o mundo, desde esse tempo e segundo o meu entendimento desde então, cresceu o suficiente para perceber que cenas destas continuam a contecer entre nós Humanos por este mundo fora, obedientes aos regimes e desobedientes à nossa Humanidade.....
Maria Victória Marinha de Campos
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Histórias de um passado em Moçambique
Histórias de um passado em Moçambique - O meu Primeiro Amor
Era uma vez, muitos anos passados, uma jovem menina de cabelos compridos e castanhos, que conheceu dois irmãos gemeos, de nomes Fernando e Armando. Moravam perto. E essa menina apaixonou-se pelo Armando mas nunca foi capaz de lhe dizer que ele era o seu primeiro Amor. Nesses tempos passados essa jovem obedecia aos pais e, era muito dificil ter liberdade de expressão. Os anos passaram e foi inevitavel um casamento com outra pessoa. Depois vieram os filhos e a vida seguiu o seu curso. Mais tarde e já sozinha soube que o Armando tambem tinha casado. E nunca mais o viu. Continua a pensar nele. Esta é a historia do meu primeiro Amor. Foi passada em Moçambique (Lourenço Marques/Jardim D. Berta Craveiro Lopes) e a minha maior esperança é que o Armando a possa ler.
Ilda Duarte
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segunda-feira, 10 de maio de 2010
domingo, 25 de abril de 2010
1 contentor de sorrisos
Caros amigos
Tive conhecimento à pouco tempo desta iniciativa que considero muito louvável e que tenho pena de não conseguir colaborar com mais, devido ao curto tempo que falta para terminar.
Falo da campanha "1 contentor de sorrisos"
Porque a escola pode ser também um lugar de solidariedade, alunos e professores da Esc. Secundária de Bocage (Profs Fátima Campos e Liliana Ribeiro, Proj."De olhos na Fome" e Turma Prof. Tec.Infância) e do Ag. de Escolas de Pêro de Alenquer (Profs Mª Barata, Edite Emiliano, Célia Anágua, Proj. Oficina do Bem-Estar) estão a desenvolver esta campanha de angariação de vários produtos, para encher um contentor de "sorrisos" para um orfanato de Maputo. Ajude-nos a AJUDAR! :)
Jantar de solidariedade
Faltam apenas cinco dias para o nosso jantar de solidariedade. Espero que possamos contar com todos os amigos que o contentor tem conquistado ao longo de todos estes meses.
Fica aqui novamente o convite e a importância de mais este sorriso para o nosso contentor...
A Acrenarmo, pede a todos que colaborem dentro do possivel, de modo a conseguir-mos que estas crianças recebam de nós, muitos, muitos sorrisos.
Obrigado
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terça-feira, 6 de abril de 2010
Histórias de um passado em Moçambique - A minha escola da 1ª classe
Aos 6 anos de idade, decorria o ano de 1964, o meu Pai ( Sr. Jardim ) foi convidado para trabalhar como chefe de mesas no Motel da Inhaca.
E fomos…., como coincidiu com a minha entrada na escola, comecei o meu 1º ano numa escola muito particular.
Ou seja, não havia escola, havia professora , havia alunos , e havia uma arvore enorme onde nos sentávamos para ter a aula.
Para terem uma ideia , esta “escola “ ficava no cima duma montanha, a única da ilha, junto á “escola” havia uma igreja, o museu, e pouco mais.
Na nossa turma seriamos cerca de 20 a 25 alunos, os únicos “brancos” era eu e a professora.
Lembro-me que ia para as aulas descalço, de calções e troco nú, tinha de subir aquela montanha por uma estrada de areia vermelha que não tinha mais de 5 metros de largura.
Posso-vos garantir que por diversas vezes tive de parar para deixar passar cobras e outros répteis.
Fiz a 1ª classe na Ilha da Inhaca, uma experiência única.
Pedro Ramilo
06-04-2010
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Histórias de um passado em Moçambique
1ª Exposição de Leonor Malaquias e Ricardo Pereira - dia 17/04/2010 pelas 15h
Leonor Malaquias e Ricardo Pereira são dois jovens estudantes de 16 anos que estudam na Escola Francisco Rodrigues Lobo seguindo a área de artes. Frequentam o 11º ano com estilos e objectivos diferentes.
Na pintura de Ricardo encontra-se traços geométricos e profundos mostrando a visão do seu mundo, ele pretende seguir design sem esquecer o gosto pela pintura Surreal.
Leonor, vê-se um traço livre e diferente com histórias para contar, Com um estilo romantico e surreal, nos seus trabalhos utiliza materiais tais como, agarela,carvao, oleo, acrilico,colagens. Segundo Leonor, os quadros são uma forma de ela mostrar o que realmente sente, querendo seguir no futuro pintura e escultura.
Estes jovens artistas pretendem que esta 1ª exposição de ambos, seja a primeira de muitas.
A ACRENARMO orgulha-se de mais uma vez, permitir que estes jovens com sensibilidade artistica, se mostrem, trazendo até nós a sua arte, verdadeira, humilde e livre.
Apostamos neles hoje, porque eles, já são os artistas de “Amanhã”
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Exposições
segunda-feira, 22 de março de 2010
Histórias de um passado em Moçambique - A minha carta de condução
Foi só na véspera do meu exame que eu consegui compreender a manobra para estacionar sem tocar no passeio. Diz-me o meu instrutor: Veja lá o que faz. Se for o Engº Lima, ele chumba-a. E então mulheres, quase nenhuma passa á primeira! Ok, então você faz-me sinal, para eu saber.
Chegou o grande dia, pedi no meu serviço, a Metalo-Mecânica, um bocado da manhã e lá fui para as Obras Públicas que também ficava na mesma rua Fernão de Magalhães.
Fui chamada e olhei para o instrutor ele fez-me o tal sinal e fiquei aliviada. Entrei no carro, o examinador ao meu lado e digo logo eu: Que alivio! Então porquê? Porque o meu instrutor fez-me sinal que não era o engº Lima. Arranque. Lá fui andando e pergunta ele:Então não gostam do Engº Lima? Digo eu: É porque ele é alérgico ás mulheres, chumba-as todas.
Lá fui andando e a certo ponto fiz um erro e diz ele: Vá lá, corrija! -digo eu: se fosse o Engº Lima, já estava reprovada. Lá fomos andando e então ele manda-me arrumar o carro entre dois , num espaço razoável. Concentrei-me, fiz marcha atrás e toquei no passeio.Digo eu: Mais uma asneira e então numa manobra que apesar de só a ter aprendido ontem me convenci de que a ia fazer bem! Se fosse o Engº Lima, estava feita!
Voltámos ao ponto de partida e diz ele: agora vai esperar um pouco para fazer o exame de código. Tive muito gosto em a conhecer e eu sou o Engº Lima!
Fiquei sem fala! Ralhei com o instrutor e ele coitado a dizer que tinha ficado convencido de que eu tinha percebido que era ele.
Daí a muito pouco tempo chamaram-me para uma sala onde estava o senhor e mais outros dois que riam a gargalhadas .Numa mesa estava um cruzamento e em cada esquina estava um carro. Pergunta ele: Se um destes fosse a senhora o que fazia? Respondo eu muito envergonhada e zangada e sei lá mais: Olhe senhor Engº Lima, se eu estivesse num dia como o de hoje, eu arrancava e os outros que fossem á vida! Um deles, rindo disse: É isso mesmo. Por outras palavras, mas é isso mesmo!!!
Vim embora, para o meu serviço, tinha passado pouco mais duma hora, e já com a almejada guia que me permitia conduzir!!!
Um abraço
Rita Botas
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Histórias de um passado em Moçambique
domingo, 21 de março de 2010
quarta-feira, 17 de março de 2010
Caros amigos
Tendo tido conhecimento da necessidade por parte do IPS-Instituto Português do Sangue de aumentar as quotas das reservas de sangue disponíveis, a Acrenarmo disponibilizou a sua sede por forma a facilitar uma recolha de sangue, que se irá realizar no próximo dia 25 de Março no período das 9h às 14h.
A recolha de sangue irá ser feita na sede da Acrenarmo sito no Largo de São Pedro, junto à PSP.
Nesse sentido, vimos deste modo informar, divulgar e solicitar a sensibilização junto de todos vós, de modo a que haja uma adesão em grande numero de modo a compensar a deslocação de meios ao local.
Após a recolha de sangue o doador terá um pequeno almoço/lanche oferecido pelo IPS.
Um pequeno gesto certamente poderá fazer a diferença salvando muitas vidas.
Gostaríamos que todos colaborassem.
Não esquecer que só poderão dar sangue 3 horas após a ultima refeição.
Salve uma vida! Dê Sangue!
O IPS e a Acrenarmo agradecem desde já a vossa disponibilidade.
Apresento os meus cumprimentos
Paulo Batista
Presidente da Direcção
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