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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Histórias de um passado em Moçambique - Bispo da Beira, D. Sebastião Soares de Resende



Vivi sempre na Beira, onde nasci, por isso em 21 anos tenho algumas histórias que se passaram na minha vida, mas de momento recorreu-me uma muito marcante na minha memória: a morte do Bispo da Beira, D. Sebastião Soares de Resende...


D. Sebastião foi sempre para a minha Família uma personalidade distinta pela sua humanidade e pela sua inteligência. Lembro-me das missas celebradas pelo mesmo, assim como as visitas feitas a uma Escola Primária na Manga, apenas para negros e eu corria para o cumprimentar, ou seja,"beijar-lhe" o anel. Tinha sempre um gesto e palavra de carinho para comigo e irmãos....assim como para os meus Pais, pois casou-os pela Igreja!....

Ele sabia que estava doente com um cancro e que tinha vindo cá a Portugal fazer uns tratamentos, mas infelizmente em vão...Era uma pessoa tão humilde, que apesar de ter um ar-condicionado no seu quarto, nunca o utilizou, assim como nunca trocou o colchão de colmo, por um de "molas"(como dizíamos).

Certo dia, o meu Pai disse-nos que tinha uma triste notícia: a morte de D.Sebastião! Chorámos e apesar de miúdos, quisemos ir ao seu enterro...Lembro-me de o fazermos a pé e ao nosso lado, haver gente de várias raças e todos choravam...e o pior para mim foi vê-lo naquela campa rasa, que tinha pedido, para ser pisado por todos nós. Sempre que passava de carro rezava por Si e em 2000 quando voltei à Beira, foi a primeira coisa que fiz com o meu irmão e ambos chorámos...mas felizmente que as nossas flores não eram as únicas! Há sempre quem se lembre de D.Sebastião!!!!....

Gisela Capelo Rocolle
Janeiro de 2010

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Histórias de um passado em Moçambique - "O discreto treinador da equipa-maravilha de Moçambique que venceu o Mundo em Montreux ( 1958 )"

Por

Carlos Pinto Coelho

O discreto treinador da equipa-maravilha de Moçambique que venceu o Mundo em Montreux ( 1958 )

(O meu tio Armando)


De repente, o meu tio Armando era um herói. Fazem ideia do que é ter 14 anos de idade e um tio herói? Pois eu conto.


Estava-se na Lourenço Marques dos anos 50. O irmão de minha mãe Sara chamava-se Armando de Lima Abreu e vivia lá em casa, longe da sua mulher e filha, que tinham ficado em Oeiras. Muito magro, alto, aloirado, de nariz delgado onde se encaixavam uns óculos de aros finos, era o homem mais calmo que jamais conheci. Falava em voz branda, sorria com facilidade e tinha paciência para mim. Eu gostava do tio Armando.

Pois o tio Armando trabalhava no Sindicato, era lá escriturário, acho eu, que era muito miúdo para saber dessas coisas. Sei que o via sair todas as manhãs cedinho, a tomar o autocarro da carreira 3 que ia da Polana para a Baixa e o deixava mais adiante, na Pinheiro Chagas, que era onde ficava o S.N.E.C.I. ( Sindicato Nacional dos Empregados do Comércio e Indústria ).

Ao cair da tarde já toda a gente estava em casa, o meu pai trabalhando processos do Tribunal da Relação, a minha mãe metida na biblioteca lendo ou escrevendo livros, o meu irmão José ouvindo música, eu às voltas com os trabalhos do colégio dos Maristas. Só o tio Armando é que nunca estava. E nós sabíamos porquê: ele andava pelo ringue de patinagem do Sindicato a ensinar os putos a andar de patins e a dar esticadas numa bola pequenina, preta e rija como madeira. Era assim todos os dias, às seis da tarde o meu tio vestia calças compridas brancas e camisa branca de manga curta, impecavelmente engomadas lá em casa, calçava sapatilhas também brancas e ia para a sua paixão, nascida em Paço d’Arcos e nos seus copos com Jesus Correia e Correia dos Santos e sei lá quem mais: o Hóquei em Patins. Acho que o meu tio nunca gostou verdadeiramente de mais nada senão da filha Fátima, que trazia na carteira em fotografia, e do hóquei. Eu achava tudo bem, porque ele tinha paciência para me ouvir.

Durante mais de uma década aquele homem dedicou integralmente os seus tempos livres, as suas forças e o melhor do seu entusiasmo a ensinar jovens a equilibrarem-se nos patins, a coordenarem movimentos e a usarem a cabeça para se articularem uns com os outros como uma verdadeira equipa deve fazer. Ele era, sem pompas nem cargos, um meticuloso formador, dirigente e treinador. E sem ganhar um tostão ! Era tudo amor à camisola, tudo pago do bolso de cada um. Quando saltava uma roda de patim, a malta quotizava-se para comprar outra. As camisolas e os calções eram oferecidos pela fábrica de malhas da cidade e, como só havia uma, ela tinha de dar equipamento para todos os clubes: o Malhangalene, o Desportivo, o Ferroviário… todos.

Eu tinha 14 anos, como já disse. Para mim o que valia eram o voleibol, onde eu era campeão do meu colégio, e a piscina, onde havia gajas boas. De modo que raras vezes fui ver os treinos do tio Armando, onde em vez de gajas havia uns tipos que não me interessavam a ponta de um chifre, e que se chamavam Fernando Adrião, Amadeu Bouçós, Francisco Velasco, Alberto Moreira e Manuel Carrêlo, entre outros.

Lembro-me bem de uma noite em que o tio Armando se fez esperar mais do que o habitual e minha mãe tinha um empadão a murchar no forno. Ele chegou tarde, desolado, porque tivera de levar um dos seus “ miúdos” ao hospital (de resto muito perto do Sindicato), com uma entorse num tornozelo durante o treino. A minha mãe seria uma santa mulher mas flor de estufa não era quanto a pontualidades. De maneira que houve mesmo patanisca, por causa do Bouçós ( ou foi o Velasco, já não sei ) que se magoou no ringue, naquele fim de tarde.

Até que um dia, tinha eu 14 anos, repito, o meu tio desapareceu de casa durante umas semanas e regressou herói. Tinha ido lá a Portugal com os seus miúdos e depois foram para a Suíça (fui ver no Atlas onde ficava) e ganharam a jogar contra o mundo inteiro. O tio Armando tinha levado as suas sapatilhas e roupa branca e era treinador da equipa de hóquei em patins que vencera o mundo representando Portugal no Torneio de Montreux. Em 1958 isso era deveras importante.

Houve uma multidão à espera deles todos, no aeroporto de Lourenço Marques (chamava-se Aeroporto de Mavalane). E publicaram-lhes fotografias nos jornais “ Notícias “ e “ Diário “ (ou seja, na Imprensa inteira) eram campeões do mundo, até falaram no Rádio Clube de Moçambique e tudo. Os putos-campeões disseram muitas vezes que deviam tudo ao tio Armando, mas nenhum jornalista quis ouvir o que ele próprio tivesse para dizer. E ele não se importou com isso. Estava mesmo feliz. À maneira dele, calmo e discreto. Mesmo assim, durante uns dias, eu vi como os vizinhos lhe davam abraços, de manhã, quando ele ia apanhar o autocarro para o Sindicato. Por isso, e porque lá em casa foi uma festa pegada de empadões, eu percebi que tinha um tio herói.

Armando de Lima Abreu ficou por Moçambique depois da independência e dizem-me que por lá morreu, sozinho, sem glória nem fortuna, e sem dar sinal de vida a todos nós, que entretanto tínhamos vindo para Portugal.

Eu tinha 14 anos nesse ano de 1958, como acho que já disse. Mas agora, que sou mais velho, fui à página que a Federação Portuguesa de Patinagem tem na Internet e pedi para ver a fotografia dessa equipa-maravilha que veio de Moçambique vestir a camisola de Portugal no Torneio de Montreux, com o meu tio Armando como treinador nacional. A fotografia está lá. O Velasco, o Bouçós, eles todos. Mas o meu tio não está na fotografia dos campeões. Acho que é porque ele, na altura, era só um escriturário do Sindicato.

Gosto muito do meu tio Armando, sabem? Ele tinha paciência para mim.

Carlos Pinto Coelho

Jornalista


Resp. Paulo Batista : Carlos, consegui por intermédio do Pedro Antunes e do Rogério (Roger Tutinegra) a foto que pretendias onde aparece o teu tio Armando de Lima Abreu, junto dos seus companheiros de equipa. Os meu agradecimento a eles por se terem disponibilizado a ajudar.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Histórias de um passado em Moçambique - "A fonética do amor"

"Olá

Uma amiga falou-me do vosso desafio, e assim desafiou-me. Não resisti e contei aquela que de todas as minhas histórias moçambicanas acho que é a mais bela. É uma história de amor.

Carlos Gil

Alverca
5 de Dezembro de 2009 "
 
 
A fonética do amor


Pedem-me que conte uma história pessoal e marcante passada em Moçambique, de forma curta e intensa, como se com tais coordenadas fosse possível condensar o fogo fazendo-o luzinha e limitar o estremecimento quando um desafio assim é proposto. É que – foi inevitável pois foi marcante, ó se foi!... – o que me veio logo à memória é uma história de amor. A minha história de amor predilecta, o love story cuja bobine aninho com o carinho que dedicamos aos momentos mais belos das nossas vidas.


Recuando ao seu princípio, hoje acho que me apaixonei logo que a conheci, que com ela brinquei, ri e chorei, pois foi sempre em sua companhia que cresci. Dos sete aos vinte anos, dito com a precisão dos registos, então vividos sem noção de tempo além da mudança dos calções para calças boca-de-sino, hoje com a lenta minúcia com que nos recolhemos quando revisitamos o tempo das mais doces memórias.

Era um namoro descomprometido, que do meu amor por ela vivia-o no dia-a-dia com a naturalidade de sempre o conhecer, ser simplesmente assim, e, ela por mim, suspeito, com a gaiatice malandra das meninas namoradeiras, cortejadas por todos e capaz de a todos conceder o seu sorriso especial. Eu juro que tive os meus, juro-o porque o senti quer nos momentos que o rubor dos sorrisos íntimos e a discrição silenciam, quer em todos os restantes, dias, noites cheias e quentes que vivíamos intensamente, lado a lado em todas as ocasiões. Viver maiúsculo, chama-se quando se é jovem e chamo-o ainda hoje assim. Ser feliz.

Éramos jovens e ela muito bela. Atrevida, orgulhosa e vaidosa da sua beleza, e qual a bonita rapariga que não o é, que não exibe o volume dos seus seios como se fossem colinas na paisagem, que, gaiata e feliz, não solta mais um botão da bata do liceu para que se veja mais um pouco das suas lindas pernas, longas e elegantes, e olhá-las é perdermos o sentido do tempo e tudo o mais, como se em cada centímetro de veludo revelado fosse mais um passo numa longa avenida, a do crescer. As suas feições, ocidentais de arquitectura e de traço moderno com um ou outro pormenor clássico que lhe realçavam a beleza (aquelas covinhas quando sorria, ó deuses…), eram apimentadas pelo tom moreno da pele, bem além daquele que o sol nos grava quando nos namora, tão lindo, tão lindo, que só consigo dele dizer que com ele ela era eroticamente selvagem, enlouquecendo-me hoje de desejo em voltar a acariciá-la quando fecho os olhos e na memória a contemplo, linda como a mais linda das princesas.

Sim, ela era bonita, lindíssima, mas achava-o natural e acho que na altura até acreditava que todas as moças seriam assim como ela, perdidas de lindas. Mais tarde, depois dos tais vinte’s, tive outros namoros e até uma ou outra paixão, mas só então percebi que o adágio que diz que não há amor como o primeiro se lhe colava com plena justiça, que moça mais linda ainda não vi, e amor igual lamento mas ainda não me visitou e eu senti.

Olhando hoje com a minúcia da saudade o seu rosto e perfil, que seduziam todos que a conheciam – sei-o e sem ciúmes, ela era simplesmente assim! reconheço que para o conjunto ter ganho tanta beleza não era estranho – felizmente não! a mistura de sangues que herdara e nela se consolidava como a mais bela do mundo, tal qual cidade que eclode na paisagem com tal elegância e dinâmica e arrasa o que a rodeia, prendendo atenções, olhares e caminhos, minimizando as restantes belezas assim chamadas propriamente de limítrofes pois, filha assim do Homem sobrepõe-se às belezas naturais. Ela era simplesmente a mais bela, a moça mais bonita entre todas, e nós namorávamos sem de tanto me aperceber bem além da felicidade de fruí-la, que a demasia quando é nossa não incomoda, e ela era minha, tinha-a, minha quase desde que me lembro e me conheci. Dos sete aos vinte, recordo e sorrio com carinho.

Nem me ralava que fosse algo frívola, já o disse, não me fazia comichão que catrapiscasse o olho e sorrisse a todos que a olhavam, que não fosse esquiva nos beijos que aceitava, que o meu amor não fosse único, pois, quando se voltava para mim e me olhava, me mimava, eu sentia-me como se o fosse e era feliz. Quando se tem uma paixão assim, um amor enorme, gigantesco, qual a admiração por ele extravasar convenções, para quê complicar? O seu gordinho era enorme mas eu sabia que nele estava o meu melhor cantinho, e quando a olhava e via o sorriso retribuído, a carícia partilhada, tudo o mais se apagava e as ruas ficavam desertas e eu era o seu único príncipe, como se naqueles momentos de ternura eu fosse o único habitante daquela cidade imensa e linda que era o seu coração.

Foi assim. Eu chamo-me Carlos e ainda estou apaixonado, reconheço. O nome dela, da minha princesa moçambicana, é lindo como ela é e certamente será sempre, mesmo que por coisas da vida tenha adoptado no registo civil outro, consentâneo com uma nova situação legal. Chama-se Eleéme, quente como ela é, e pronuncia-se com os lábios terminando num beijo lento, final sempre feliz quando se tenta a fonética do amor.


Publicada por Carlos Gil aqui.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

SABOR A PASSADO

SABOR A PASSADO


Um sabor a passado
Véu rasgado
Abrindo memórias
Tempo que não volta
No tempo
Mas permanece
Nas alegrias
Nas tristezas
Nas confidências
Doutro tempo
No silêncio dos anos
As reminiscências
As lutas
As incertezas
Os desencontros
No tempo
Mas sempre a tempo
De novo encontro



Maria Isabel Campos de Almeida Batista
31/11/2007

(Encontro telefónico com uma amiga ao fim de 35 anos)

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Histórias de um passado em Moçambique



Caros amigos.

A ACRENARMO está a lançar um desafio a todos os que estiveram em Moçambique e que foram testemunhas das vivências dos Portugueses e Luso moçambicanos naquele país que ainda hoje mexem nos nossos corações.

Gostaríamos que partilhassem connosco uma história que vos tenha ficado gravada na memória e no coração. Pode ser sobre um episódio familiar, social, desportivo, sobre um amigo, um amor, etc.

A ideia essencial é pedir-vos que enviem as vossas próprias histórias para serem colocadas aqui no nosso blog.

De preferência, aquela que mais vos marcou e que dificilmente se vão esquecer.
Regras, há apenas duas: as histórias têm que ser curtas e têm que ser reais, e a sua publicação depende não de critérios literários, mas sim do mérito e da humanidade das mesmas.

Partilhar esses momentos, é contribuir para a preservação da memória de Moçambique e a vida dos portugueses além-mar com testemunhos em poesia, diálogos ou narrativas, de alegrias e tristezas, mágoas e arrependimentos, trabalho ou a escola, serviço militar ou missões, férias, sobre a velhice ou sobre a infância, dramas ou episódios hilariantes, de encontros e desencontros, de amores eternos e os impossíveis, dos fracassos e dos sucessos, das dificuldades e das oportunidades, dos amigos e das saudades que trouxemos connosco e assim transmitir essas vivências aos mais novos e as gerações futuras.

Enfim, a lista de possibilidades é longa.

Certamente não faltarão memórias. Todos temos episódios para contar.

Partilhar é dar liberdade às memórias, tornando-as propriedade de todos nós e das gerações futuras.

Até lá….Boas memórias.