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quinta-feira, 21 de abril de 2011

Escritores, Poetas e Contadores de Histórias de Portugal e Moçambique



Feira do Livro Temática de Moçambique / Encontro de Escritores / Palestra dinamizada pela Dr.ª Fernanda Angius e Dr.Delmar Gonçalves / Tertúlia Poética / Tertúlia “Histórias de um Passado em Moçambique”

Local Sede da Acrenarmo - Leiria

Largo de São Pedro - junto ao Castelo de Leiria

15 / 5 / 2011

10h – Abertura do evento – Recepção de boas vindas

10h30m – Feira do Livro Temática de Moçambique – Exposição de livros (todo o dia)

...• Será posta à disposição dos autores uma mesa para exposição dos seus livros. – A inscrição para expôr os livros será Gratuíta para sócios e 5,00€ para não sócios, por pessoa. A decoração da mesa será da responsabilidade do inscrito.

11h30m – Apresentação do CEMD - Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora por parte do seu presidente, Delmar Gonçalves*.

- Palestra Dinamizada por Dr.ª Fernanda Angius* – apresentação dos novos escritores Luso-moçambicanos e suas obras

• Antevisão dos novos valores literários Luso-moçambicanos

12h30m – Convivio de escritores – Pequena auto-apresentação dos autores presentes e visão geral dos seus livros

• Auto apresentação de cada autor inscrito, falando dos seus livros e sobre a sua escrita

13h30m – Almoço / convívio

• Almoço buffet no restaurante o Paço

15h30m – Tertúlia Poética – Leitura / declamação de Poesia

• Leitura de poesias por parte dos inscritos (poetas e publico em geral) respeitando a ordem de pré-inscrição

16h30m – Tertúlia “Histórias de um passado em Moçambique” – Leitura de histórias / memórias passadas em Moçambique

• Leitura de pequenas histórias / memórias por parte dos inscritos (publico em geral) respeitando a ordem de pré-inscrição. Seria interessante que cada orador, trouxesse um objecto para mostrar que fizesse a ligação com a própria história (pode até ser uma fotografia)

18h30m – Fim / Convívio



*Convidados:

Delmar Maia Gonçalves – Escritor / Fundador e Presidente da direcção do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora

Nasceu em Quelimane a 5 de Julho de 1969

É também Professor, colaborador de vários jornais e revistas e Embaixador da Paz da The Interreligious and International Federation for World Peace.

É membro Fundador e Vice-presidente da direcção do Centro Cultural Luso Moçambicano e do Espaço Rui de Noronha. É também membro Fundador e Presidente da Assembleia Geral da AIDGLOBAL-ONGD e é membro Fundador e Presidente da direcção do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora. Também é membro Fundador, membro do Conselho Consultivo e do Conselho Fiscal do Movimento Internacional Lusófono (MIL)

Obras do Autor

• Moçambique Novo, O Enigma - Editorial Minerva (2005)

• Moçambiquizando, Editorial Minerva (2006)

• Afrozambeziando Ninfas e Deusas, Edições Mic (2006)

• Mestiço de Corpo Inteiro, Editorial Minerva (2006)

Antologias Internacionais

• Libro de Poetas 2008, Aires de Córdoba Asociación Cultural (2008)

• 21 Festival da Poesia no Condado "Ajustiçar a história, gahnar dignidade" - Antologia Poética, SCD Condado (2007)

• "Silêncio é o barulho baixinho" - Cancioneiro Infanto-Juvenil para a Língua Portuguesa, 4º Concurso Poético Volumes X/XV, Editorial Piaget, Lisboa, 2000

• Prémio Nacional de Literatura Juvenil Ferreira de Castro - Colectânea de Primeiros Prémios 1977-1990, E.S.F.C., Oliveira de Azeméis, 1991.

Revistas

• Revista do VII Encontro Internacional de Poetas da Universidade de Coimbra, "As línguas da poesia - The Tongues of poetry", FLUC, 2010



Fernanda Anglius –

Criadora de programas literários e culturais na EN até 1975.

Em 1975 optou pela exclusividade do Ensino de Português e Francês.

Em 1979 foi convidada pelo Instituto de Alta Cultura para preencher o lugar de Leitora de Português na Universidade de Florença, onde leccionou Língua e Cultura Portuguesa até 1984, orientando a primeira tese sobre um escritor português naquela Universidade.

Em 1985 foi convidada pelo então ICALP para aceitar o lugar vago no leitorado de Harare no Zimbabwe. Até 1988 aí leccionou e orientou duas teses uma - "Lisboa e a Cultura Portuguesa na Música Ligeira em Portugal" e a outra, "Fernando Pessoa e o Sentido da Vida ".

Em 1989 foi transferida para a Universidade Pedagógica de Maputo, ainda em formação e que era então a continuidade dada ao ex-Instituto Superior de Formação de Professores.

Também aí leccionou Introdução aos Estudos Literários, Literatura Portuguesa e Brasileira, Teoria da Literatura e orientou a primeira tese de literatura feita em Moçambique por uma estudante moçambicana e sobre Teoria da Literatura apoiada aos textos de Mia Couto, o primeiro escritor moçambicano sobre cuja obra foi feito um estudo sério em Maputo.

Em Moçambique dedicou-se por inteiro ao apoio do ensino da língua portuguesa e à formação de professores moçambicanos, colabou na inserção do ensino bilingue e onde pode chegar o seu interesse na ajuda à consolidação do ensino da língua como ferramenta de aquisição de mais valia cultural e auto afirmação do povo moçambicano.

Em 1998 foi colocada por concurso público em Paris como professora de Português em França.

Em 2003 obteve a reforma e passou a dedicar-se a tempo inteiro à investigação das Literaturas africanas escritas em português.

É membro da Associação de Lusitanistas desde 1991, participou em vários Congressos com trabalhos que estão publicados em actas e Revistas Literárias em Itália, França e Portugal.

Desde 1998 participa habitualmente em Colóquios Internacionais, levando a todo o mundo as Literaturas Africanas com especial interesse sobre os autores moçambicanos que tem dado a conhecer melhor.

Desde 2009 lecciona na Universidade Sénior dos Rotary de Viseu.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Histórias de um passado em Moçambique - "SAUDOSOS"



SAUDOSOS

É o passado
Em sorrisos abertos
Olhos gulosos
De tanta saudade
Rostos sem idade
Mas de alma firme
Em franca solidariedade
Conversam, riem
Dançam e cantam
Relembram histórias
Temperadas de sol
Com o cheiro das acácias
E o brilho das missangas
Em abraços coloridos
Numa procura
Em cada rosto
Dum pedacito de África
Que os marcou
Que lhes tatuou a existência
Um tempo que sabem
Não voltará.

Dedicado aos Beirenses
(Encontro em Albufeira)

Isabel Batista
09/04/2011



Histórias de um passado em Moçambique - "O QUE O CORAÇÃO DIZ QUE A ALMA NÃO SENTE"


NÃO QUERO ACREDITAR QUE NO TEU CORAÇÃO HÁ UM OUTRO NO MEU LUGAR

JÁ SUBI E TAMBÉM DESCI , E AGORA QUERO CAMINHAR NUM CAMINHO PLANO E

SEI QUE NO ME ENGANO ,PORQUE SEI QUE VOU AO TEU ENCONTRO SEM SINAL

DE STOP,MAS GOSTARIA DE IR A GALOPE MAS COMO DEIXEI O CAVALO NO CAMPO

E PARA MEU ESPANTO NÃO TE ENCONTREI E COMO NATURAL TRISTE FIQUEI ,MAS

SEI QUE O PRINCIPAL É QUE TE ENCONTRAS NA ZONA DO PINHAL ENSINA-ME A

DISCERNIR DANDO-ME A LUZ PARA DECIDIR E TE OUVIR PARA ESCUTAR TUA VOZ

E TE VER SORRIR .

DE TUDO QUE PLANEEI NADA DESFRUTEI MAS SEI QUE ESCREVI O QUE SENTI

MAS NÃO VIVI ,SEI QUE FUI AMADO E TAMBÉM IGNORADO ,UM SIMPLES ABRAÇO

OU UM BEIJO PODE CURAR UM MAU ENTENDIMENTO UM SOFRIMENTO OU DAR FORÇA

A UM DESEJO SE DERES ALGUM DO TEU TEMPO PARA AMAR RESPEITAR E A TUA

DOR IR´SUAVIZAR .E PODES CRER QUE O ANDRADE IRÁ GOSTAR .



MOUGUEIRA --02/0472011 ANDRADE MUTARA

Histórias de um passado em Moçambique - "RETALHOS DA VIDA"


A VIDA É FEITA SE PEQUENOS NADAS DE ÓDIOS DE PRECONCEITOS POR ISSO A NOSSA IGNORÂNCIA.

SEI E ADMITO QUE ESTOU NESSA CLASSE DE APRECIAR O BOM E O MAU PARA MAIS TARDE REVER E PODER SEPARAR O TRIGO DO JOIO.

SEI QUE NÃO É FÁCIL MAS DENTRO DE MIM AINDA EXISTE ALGO QUE ME DÁ FORÇAS PARA OLHAR SEMPRE DE FRENTE OS OBSTÁCULOS QUE POR VENTURA SE APRESENTEM.

SÃO AS VIRTUDES E O BOM SENSO QUE DESCONHECEMOS OU QUE QUEREMOS IGNORAR E O NÃO CRERMOS.

ASSUMIR OS ERROS QUE COMETEMOS PASSAMOS AO LADO PARA NÃO SERMOS VISTOS PARA LAMENTAR O FRACASSO DA NOSSA MANEIRA DE VIVER.

SEI QUE NO MEU CRESCIMENTO POUCO APRENDI PORQUE ME AUSENTEI DE TUDO MAS HOJE RECONHEÇO QUE PEQUEI MAS AINDA ESTOU A TEMPO DE CAMINHAR EM FRENTE.

NÃO VAMOS PENSAR NO PASSADO MAS SIM VIVER O PRESENTE ALEGRE E CONTENTE E MOSTRAR A TODA A GENTE QUE O QUE INTERESSA É O PRESENTE .

ANDRADE MUTARA

MOUGUEIRA 10--04--2011

terça-feira, 15 de março de 2011

Histórias de um passado em Moçambique - "Para o resto da minha vida..."

Corriam as férias grandes do meu segundo ano de Veterinária quando consegui, com muito esforço, reivindicar junto do então ex-Ministério do Ultramar, uma passagem aérea para ir a Moçambique ver os meus pais que já há cerca de três anos não via.

Também por volta dessa época, a correspondência amiga que travava com aquela que viria a ser minha mulher, bem indicava que o nosso namoro ia pegar e que, ver para crer…e falar, era tão imprescindível para o assumir do meu compromisso, que não havia no Terreiro do Paço fosse que Ministério fosse capaz de me reter por mais um dia em Lisboa.

Num subir e descer de escadas permanente naquele Ministério cansei-me a reclamar dos meus direitos que eram, nem mais nem menos, iguais aos dos que já tinham partido para junto dos seus. E à terceira folha de papel selado que assinei, consegui que me deferissem a pretensão. Nada tinha havido de mais justo!

As saudades eram enormes como se calcula, e a ânsia de me “mostrar” universitário, já mais homem, portanto, não o era menos. Estava desejoso de a todos os meus relatar, de viva voz, o meu dia a dia na capital, os meus êxitos e insucessos, as minhas dificuldades, a “seca” que tinha sido a anatomia, o quanto me faltava ainda de teoria para começar a praticar!...eu que nem sequer ainda uma injecção sabia dar!...

Entretanto, naqueles três anos que me separaram de Moçambique muitos hábitos se modificaram nas nossas vidas por razões da alteração da vida profissional do meu pai. Os dias passaram a ser a ser menos optimistas por força das circunstâncias e a angústia da distância e da ausência, cada vez mais nos faziam sentir o desejo do reencontro! Era fundamental que tal acontecesse!...e lá se consumou a viagem nesse 19 de Agosto de 56.

A chegada ao destino foi um episódio da minha vida que jamais esquecerei! A expectativa era grande e o desejo de me ver em terra…ainda maior!

Sobrevoava Nampula pela primeira vez. Um autêntico luxo para a época! Deliciei-me a ver lá de tão alto toda aquela geometria de casas e avenidas, todas elas ainda do meu tempo de escola…e que eu agora em conjunto revia numa perspectiva que estava nos meus planos de viagem a não perder! Cá em baixo, uma improvisada palhota servia de gare; e no meio de meia dúzia de carros e pessoas que lhe estavam por perto, foi fácil detectar os meus que me aguardavam.

Entre risos, beijos e abraços…a conversa perdeu sentido!...até porque a comoção nos rouba quase sempre as palavras que as lágrimas substituem, e ali naquele momento da chegada não era o melhor local para conversar.

…a caminho do Parrane!

Depressa nos instalámos no “carocha” e seguimos rumo a casa. Dali até ao destino iam umas boas duas centenas e meia de quilómetros que o nosso ameno diálogo muito ajudou a encurtar. Minha mãe deixava, disfarçadamente, cair uma lágrima de vez em quando, que não me passava despercebida. Mas à medida que nos íamos aproximando do local, onde, afinal, a vida deles voltara a recomeçar…percebi que a sua comoção não se remediava com disfarces: era a expectativa do momento da chegada a casa e o não saber como reagiria eu às novas mudanças que, entretanto, se tinham operado! Nova casa…novos hábitos…novos espaços. Como iria eu reagir àquela transformação radical?!...era, ao fim e ao cabo, essa angústia que lhe apertava a garganta e a razão de ser de tanta lágrima vertida. Mas depressa tudo isso passou quando, particularmente, minha mãe se apercebeu da alegria que eu senti quando entrei pela primeira vez naquela casa!...Senti-me nas minhas sete quintas, pois era com aquele estilo simples de casa rectangular, coberta a colmo, que eu sempre sonhara vir um dia a gozar o mato que foi sempre onde melhor me senti!...estava tudo no sítio…por maior que fosse a improvisação!....e tudo à mão de semear!

Pelas redondezas tínhamos o único vizinho a cerca de dois quilómetros dali, e a duzentos metros, a única estrada que nos ligava à urbe mais próxima, assim mesmo a trinta quilómetros da nossa casa.

Nestas circunstâncias, e para quem sabe o que era a vida no mato, os “ranchos” e as medicações mais comezinhas aviavam-se para o mês sempre que se ia à cidade! O arroz e as batatas eram tão imprescindíveis para a sobrevivência como a tintura e os anti-palúdicos para quem vivesse longe do mercado ou do hospital. Viver no mato era assim…com todos os seus encantos, mas também com todos os seus riscos!...e no Parrane…o mato estava ali!

…e para grandes males….grandes remédios!...

Nas circunstâncias em que a vida ali se desenrolava com os recursos que, diariamente se inventariavam para se prevenirem as falhas, era com a “prata da casa” com que, a maior parte das vezes, se resolviam as situações mais imprevisíveis, desde a limpeza de um carburador até à substituição de um cano numa parede! Daí que na ausência de uma assistência médica a que o isolamento nos votava…fosse a minha mãe a “responsável”, na medida do seu possível e gosto, por tudo o que na área curativa e preventiva à saúde dissesse respeito. Todos os dias engrossava a fila dos que junto dela procuravam o seu alívio!...”Prescrevia” e aviava, e em casa, no dia certo, e à hora exacta, lá estava junto ao copo de água do almoço, o comprimido da semana que era obrigatório deglutir para que, pelo menos, o paludismo não entrasse em casa. E o preceito era rigorosamente cumprido; somente o meu pai, por vezes, e por motivos de ausência, o desrespeitava, e como tal, um dia foi acometido de um ataque violento de febres. Renitente a tudo que fosse tomado em comprimidos, deliberou logo à partida que aquelas temperaturas altas só o deixariam em paz com uma injecção. Contra esta vontade nada havia a fazer! Só que a situação se agravou apesar de na nossa farmácia caseira nada faltasse para que tal desejo fosse satisfeito: é que voluntários para a ministrar não havia! Nem eu nem minha mãe sabíamos dar injecções e enfermeiros próximos também não existiam.

Meu pai argumentava, por razões que lhe pareciam óbvias, que eu estaria em condições de pôr em prática alguma da teoria que certamente já tinha adquirido nos meus dois primeiros anos de veterinária. Por mais que fossem as razões que lhe desse sobre a minha inaptidão para o efeito, a contra argumentação dele acabou por vencer e convencer-me a fazer-lhe a vontade.

Imaginem-se os cuidados de que me rodeei… e os receios em errar o “alvo”!!...

Cumpridas as regras básicas do traçado nadegueiro e colocada a agulha entre o polegar e o indicador da mão direita, desferi o golpe como melhor me pareceu ser o mais indicado. Meu pai gritou um “ai” lancinante ao sentir a agulha, pelo que me assustei e a retirei, de imediato.

-“Desculpe, se o magoei”! Disse-lhe eu.

-“Não foi nada, foi só para te assustar” disse rindo-se, para me tranquilizar, rematando como que a justificar-se:

-“À segunda tentativa já te sentes mais confiante, tenta lá outra vez!”

E repeti a acção. De facto com mais confiança em mim e dando a injecção já sem qualquer receio.

Meu pai levantou-se da cama e ajeitando a roupa, rematou a conversa:

-“Vês? Custou-te alguma coisa? naturalmente que não!...a primeira vez é sempre a primeira! só que esta sempre tem mais uma particularidade: é que nunca mais te vais esquecer pela vida fora que o primeiro “animal” que injectaste….foi o teu pai!”

Autor: José Joaquim Caldas Duque


Histórias de um passado em Moçambique - Um burro chamado "Amaral"

Era uma vez um burro, cinzento-escuro, luzidio, bem anafado, que pertencendo à Sociedade Agrícola do Chuabo Dembe, nos arredores de Quelimane, dava pelo nome de “Amaral”. O asinino, de fino porte e bem representativo da espécie, gozava do privilégio de ser por todos acarinhado e de dispor de uma certa liberdade de pastorícia que nem todo o irracional desfruta!

Cedo se ausentava do Chuabo Dembe para deambular por todo o sítio onde o verde fosse mais tenro e a sombra mais apetecível à ruminação. Se o chamassem…vinha à mão, se o acariciassem…agradecia com as orelhas.

Um dia, pelo palmar da dita Sociedade Agrícola, e já nas redondezas da área da antiga F.A.E., avistei o “Amaral”. Aproximei-me dele, afaguei-o e ficámos juntos por uns minutos naquela troca cordial de mimos a que ele já se habituara. Quando me dispus a deixá-lo o animal seguia-me, obviamente. A minha retirada não estava fácil! E como não era possível deixar que a perseguição se mantivesse, por muito grande que fosse a teimosia dele, procurei alguém que por ali andasse por perto e fosse capaz de o “distrair” para que me sentisse liberto da sua simpática companhia. Eu tinha os meus afazeres e não me podia demorar mais tempo por ali.

Avistei na estrada que dava acesso ao aeroporto um trabalhador que se dirigia para os lados do Chuabo Dembe e chamei-o:

-“Hei! Você vai no Chuabo Dembe?” – perguntei

-“Vai, sim senhóra, patarão!” foi a resposta imediata

Seguiu-se o meu pedido:

-“Então você não importa de chóvar o Amaral para lá, mane, mane?”

-“Não senhóra…não pode mesmo!” – foi a lacónica resposta que ouvi.

Insisti mais uma vez no favor, convicto da sua prestimosa aceitação:

-“Vá lá…leva lá o Amaral que ele é amigo de você!”

-“Não pode, senhóra!...não aguenta!!” – novamente a mesma resposta que tinha dado, desta vez com um sorriso de comprometimento.

-“Mas não pode, porquê?” – insisti.

-“Porque…Amarrale… é eu!!!”

 
Autor: José Joaquim Caldas Duque

Histórias de um passado em Moçambique - "IN MEMORIUM"

Conhecia-o já de há muitos anos e com ele partilhei sempre alguma parte da minha vida! Estar com ele, apesar de eu ser mais novo…ainda mais novo me revia. O Fernando Duque Adão, a pessoa de que vos falo neste momento….o Adão da Fazenda, assim mais conhecido de uns, ou o Adão do Rádio Clube, mais conhecido por outros, deixou-nos mais sós no dia dos seus anos!...e sem dele podermos voltar a sentir a boa disposição com que sempre nos sabia brindar com a sua presença.

Ficaram na saudade de muitos, certamente, as suas iniciativas de recreio, de solidariedade, as suas entrevistas, as festas de confraternização, o teatro, a música, mas sobretudo a sua disponibilidade para ajudar quem dele precisasse fosse no que fosse. Para além deste valioso legado, o seu bom humor foi bem conhecido de todos que com ele privaram. E é desse humor que aqui vos deixo esta foto que ele me ofereceu um dia com a sua inegável originalidade para sempre nos fazer sorrir!...Em sua memória…

Autor: José Joaquim Caldas Duque, 1999


(Fotografia a anexar brevemente)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Histórias de um passado em Moçambique - "Vida por Vida"


Estávamos num qualquer dia de Fevereiro de 1974 ao fim da tarde.


O meu “mainato”, mais que isso era um grande amigo, partilhávamos dia a dia o que nos restava para nos alimentarmos. Nesta luta de saciarmos o estômago já que o que restava era algum arroz, feijão e farinha que era o “pão-nosso de cada dia”, mas tomado pelos bichinhos (gorgulho). Ainda me recordo e bem que o feijão era cozido em bidões de gasóleo! O pão esse vinha sempre com “brinde” como o bolo-rei, só que os brindes eram sempre esses indesejáveis parasitas.

Bem voltemos à “vida por vida”.

Nesse fim de tarde o Inácio disse-me: « roubei dois ovos ás galinhas que andam lá no aldeamento ». Estávamos perante um “banquete”. Arranjaram-se uns pauzitos e pouco depois já haviam brasas. A panela essa era uma lata da margarina made in South África. Os nossos olhos deslumbravam-se e a barriga essa preparava a passerelle para tão apetitosa iguaria.

Eram quase 18h e a escuridão começava a abater-se. Mas qual quê, o que interessava era o “festim”. Enquanto eu mirava o conteúdo da lata, o Inácio deu uma cambalhota para a retaguarda e ao mesmo tempo gritava,« nosso cabo Afonso, saída (expressão utilizada quando se ouvia o estampido seco de um morteiro). Logo de imediato faço a mesma acrobacia e ficamos atrás de um pequeno murete onde se faziam as refeições. Decorreram talvez uns 3 segundos e eis que a morteirada cai precisamente em cima da nossa ementa! Nunca mais vimos nem a lata, tão pouco os ovos e as brasas essas sumiram. Ficou em seu lugar uma cavidade produzida pela granada de morteiro.

Entretam-to desencadeia-se uma flagelação ao nosso destacamento. Não houve baixas, ou antes, houve nos nossos estômagos amargurados.

Valeu a vida que ainda hoje desfruto. Quanto ao Inácio nada mais soube dele quando sai do aquartelamento. Fiz algumas diligências, mas nada. Fico com a amargura de perder esse “elo” da minha vida.

João Afonso
24/09/2010

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Histórias de um passado em Moçambique - "Memórias que nos marcam"

DEDICO ESTA NARRATIVA AO MEU PAI RECENTEMENTE FALECIDO.....

Rondava o ano de 1968/69

Por imposição de trabalho da Serração Mecânica, com sede em Lourenço Marques, meu pai teve que mudar-se com armas e bagagem para um acampamento no meio do nada em plena selva Moçambicana.

Nós (eu, meu irmão e minha mãe), sem termos voto na matéria, tivemos que o acompanhar…

Hoje, recordando o passado, sou feliz e agradeço a meu pai, por ter vivido de perto e na primeira pessoa, acontecimentos tão enriquecedores que só aquela África que nós tanto amamos, nos proporcionou.

Escolhi esta historiazinha, porque é uma sequência de vários acontecimentos que se desenrolaram na mesma altura:

Se bem me lembro, chegamos ao Litane, numa manhã cinzenta e orvalhada pelo cacimbo da noite.

O cenário pareceu-me tão desolador que ainda hoje o comparo com um campo de guerra depois de uma batalha…

Uma clareira, a centenas de quilómetros da povoação mais próxima, onde havia sido desbravada alguma floresta para assim poderem instalar um acampamento. Nele constava uma serração de madeiras, que era o posto de trabalho do meu pai, uma pequena casinha de madeira, pintada de cinzento com o telhado de chapa galvanizada com uma enorme varanda, que seria a nossa casa, uma cantina que era onde os empregados se abasteciam de tudo o que precisavam, desde alguns alimentos, roupa, calçado, etc.

Nas zonas circundantes, por entre as árvores e extenso matagal que nos rodeava, viviam os negros, empregados da serração, que ali se deslocavam todos os dias para exercerem as suas funções e onde meu pai era o encarregado…

As noites silenciosas de África eram únicas, apenas interrompidas pelo coaxar das rãs e pelo pipilar das aves nocturnas.

Nós gostávamos de nos deitarmos nas esteiras no chão, tendo o céu estrelado como tecto e ouvíamos a VOZ DA SELVA, uma emissora Sul-africana, proibida, mas naquele fim de mundo, nada era proibido!

As noites mais animadas eram aquelas em que o meu pai ia à caça e nos levava, por vezes, só regressávamos de manhã, pois perdíamo-nos, já que os guias que levávamos embebedavam-se e esqueciam os caminhos…

No dia seguinte a uma caçada, havia sempre festa no acampamento, pois o meu pai distribuía a carne pelos empregados.

O acontecimento que mais me marcou naquele ano de 69 foi a morte do meu cão “Paulino”pois teve uma morte horrível e isso quase que nos atingiu fisicamente…mas passo a explicar:

Uma manhã, surgiu lá no acampamento um cão enorme com um comportamento muito estranho.

O Mafaiate (nosso empregado) quando se apercebeu foi logo chamar o “patrão” (meu pai), mas quando ele lá chegou já o dito cão tinha feito estragos irreparáveis:

Surgiu na minha frente, mas tentou atirar-se a minha mãe, que entretanto pegara numa vassoura, felizmente, para nós, o “Paulino”desviou a atenção do dito cão para ele e, azar do meu cãozinho, foi o escolhido para ser uma bola, debaixo das patas enormes daquela fera enraivecida.

Quando o meu pai chegou, já o dito cujo tinha abalado.

O “Paulino”estava todo mordido mas vivo, embora bastante combalido.

Meu pai tratou dele e quando melhorou, prendeu-o ao fundo da machamba, pois achava que o cão tinha sido contaminado, estava com raiva e ia morrer….

Fiquei chocadíssima!!!

A machamba era cercada por tábuas muito altas, para proteger as hortas dos animais selvagens, que por onde passavam destruíam tudo.

Sempre que eu podia ia pelo lado de fora da machamba e espreitava por entre as tábuas para ver o meu bichinho, não via nada de anormal, apenas via tristeza nos olhos dele e achava que era por estar preso. Meu pai achando que se tinha enganado no prognóstico, resolveu soltá-lo passadas algumas semanas, já que ele aparentava estar muito bem, mas apesar de não nos fazer mal, ele atirava-se aos restantes cães, coisa que anteriormente não acontecia….

Voltou a ser preso e pouco depois teve vários ataques de fúria contra o Mafaiate, pois era ele que o tratava, deixou de comer e quando o fui espreitar pela ultima vez, olhou-me com ódio, ou talvez com loucura, sim…hoje acho que dos olhos dele emanava loucura!!

Com o cão morto, havia a incerteza se também estávamos contaminados pois brincávamos com ele…

Nessa mesma manhã com toda a urgência possível, meu pai mandou preparar o Land Rover e partimos rumo a Maoel, o acampamento mais próximo que de nós se encontrava…

Mas…e porque, todos os dias, tínhamos um camião que se deslocava de Maoel ao Litane a fim de transportar as madeiras que meu pai preparava na serração e que depois eram exportadas para a África do Sul, e que também, nos abastecia de tudo o que era necessário, o motorista e seu ajudante, já havia alguns dias que se queixavam que era complicado passar, pois andava um búfalo ferido que os esperava no caminho e por vezes os fazia perder muito tempo, uma vez que o búfalo era teimoso e não se desviava do trilho por onde a Izuzu tinha que passar.

Nessa manhã e temendo o encontro com o búfalo, meu pai que era um amante inveterado da caça grossa e como sempre fazia, quando nos deslocávamos para algum lado no mato, metemo-nos os quatro dentro da cabine do jipe e com uma arma de caça grossa ( carabina calibre 375) em cima das nossas pernas, que normalmente ia dentro do respectivo saco, mas daquela vez e por ter receio de não ter tempo, se o búfalo aparecesse até ia fora do saco e pronta a disparar…

E o inevitável aconteceu…na zona onde o motorista dizia que o búfalo aparecia, meu pai afrouxou a marcha do jipe e todos nós apurámos a visão na esperança de o vermos e a certa altura minha mãe diz:

-Estou a ver qualquer coisa a mexer junto daquela árvore,!!

Meu pai que, repentinamente, também se apercebeu, saiu porta fora do jipe mesmo com ele em marcha lenta e até se esqueceu de o parar, por sorte nossa, o trilho era tão fundo que o jipe acabou por parar sem sair da picada.

Meu pai mandou dois tiros para aquele vulto enorme por entre as árvores, esperou uns segundos e avançou mais um pouco com a arma em posição de fazer fogo novamente caso fosse preciso, mas perdeu de vista o tal vulto e temendo ir mais em frente e já que o nosso tempo urgia, voltou para junto de nós, pegou numa catana e foi dar umas catanadas na árvore onde o búfalo estivera encostado, para marcar o sitio, pois na nossa volta era propósito do meu pai procurar o bicho

Seguimos o nosso destino até Maoel onde chegamos já tarde avançada

Dirigimo-nos a casa do Sr. Gonçalves, a quem contamos o sucedido e depois de comermos algo partimos rumo a Manjacaze, onde se encontrava o hospital mais próximo.

Não recordo bem, mas tenho uma vaga ideia de que fomos logo atendidos com toda a urgência e começamos por levar uma injecção na barriga, cada um, e isso continuaria dos dias seguintes durante uma semana. Depois de medicados, meu pai resolve voltar para Maoel, onde esperávamos ir jantar e pernoitar, mas o jipe depois de algumas horas de caminhada resolve pregar uma partida e quedou-se num sítio onde não se via viva alma e ali tivémos que passar a noite os quatro dentro da cabine do jipe e por sorte, meu pai à saída do Litane disse para minha mãe pôr mantas no jipe pois nunca se sabia o que nos esperava e bom jeito nos fizeram…

Ao romper da madrugada, passaram uns franceses que pararam e nos ofereceram café e bolos, logo de seguida passou um padeiro que ia fazer a distribuição do pão, porque afinal de contas até nem estávamos muito longe da povoação Álvaro de Castro. Meu pai aproveitou a boleia do padeiro e foi ver se arranjava um mecânico para arranjar o jipe.

Passado algum tempo regressou com outro jipe que “chovou” o nosso até á oficina do mecânico e enquanto que se arranjava o jipe fomos almoçar a casa do administrador de Álvaro de Castro que por coincidência o meu pai já conhecia e que já não se viam havia muitos anos.

Depois do jipe arranjado, retornamos para Maoel, isto numa sexta-feira de tarde, onde jantámos e pernoitámos em casa do Sr. Gonçalves.

No sábado de manhã e depois de termos levado outra dose na barriga, regressámos ao Litane com as restantes injecções onde o enfermeiro de Maoel iria todos os dias dar-nos as que faltavam.

Quando de novo passamos no sítio onde o meu pai tinha dado os tiros ao búfalo, meu pai parou o jipe e inspeccionou o local, mas não se sentindo muito á vontade achou por bem continuar-mos para o Litane e então no Domingo manhã cedo reuniu uns quantos homens e munidos de catanas e alguns cães partiram ao encontro do dito búfalo.

Ao fim da manhã o meu pai estava de volta com o bicho e ainda quente pois tinha morrido naquela manhã.

Foi uma grande festa no acampamento, pois a carne foi toda distribuída pelos empregados da firma.



Esta, entre outras histórias, fizeram a história do meu percurso por aquela terra mágica que jamais esqueceremos e quem nasceu ou viveu e passou por situações idênticas, sabe bem do que falo…

Que todas as recordações da nossa África nos façam felizes pois tivemos um passado rico de experiências, nem todas boas é certo, mas vivemos um mundo de aventuras múltiplas, temos um passado digno de ser recordado, porque afinal,

Lá…

VIVEMOS !!!

E não apenas…

PASSAMOS PELA VIDA!!!

A todos um bem-haja.

MARIA VIEIRA

terça-feira, 13 de julho de 2010

Histórias de um passado em Moçambique - "Um susto valente"

Numa bela noite como tantas que tinhamos em Lourenço Marques, eu mais um colega e amigo da Firma onde ambos trabalhávamos fomos tomar um copo de fim de tarde ao Miramar, conversa puxa conversa ali ficámos até sensivelmente às 08 da noite, combinámos então ir jantar à Costa do Sol, como ainda era cedo, fomos parar um bocado para conversar nos chamados pinheiros onde muitos casais paravam uns para namorar outros simplesmente para conversar.


Certo é que nós nessa noite estranhamos nesse lugar haver muito pouca gente e carros (o que não era costume) mas, não ligámos ao caso pois quem não deve não teme...acontece que quando estávamos já um bocado longos na conversa o meu amigo começou a ver uns movimentos estranhos do meu lado e começou a ligar o carro e na altura em que iamos arrancar deitaram a mão à minha porta mas não conseguiram abri-la bateram com a catana no carro, e, mais aflitivo ainda o carro começou a enterrar na areia ele meteu o acelerador a fundo e como eu costumo dizer que fo Deus que nos deitou a Sua Mão pois o carro começou a andar conseguindo desembaraçar-se da areia que o prendia e conseguimos sair dos pinheiros e pomo-nos instantemente na estrada...eu tremis e sentia-me paralisada, nem eu nem ele conseguimos articular palavra por uns largos momentos, isto eram para aí uma 9.15 da noite no ano de 1976, pensei que já não viria a minha filha de 4 meses e meio e que nunca mais sairia de Lourenço Marques pois que já tinhamos passagem marcada para vir para Portugal, posso dizer que só este momento de estar a relatar este drama continuo a ficar aflita e sem forças pois a aflição nessa noite foi brutal, e já agora posso dizer que com quem estava era o pai da minha menina e estávamos a conversar sobre ele assumir a filha o que veio acontecer para depois indo cada um para seu lado, hoje sou feliz com o homem com quem casei há 21 anos, temos 2 filhos lindos, a outra minha filhota já está casada tendo ela 34 aninhos.

Meus amigos espero ter contribuido com a minha veridica história e espero que ela esteja bem contada, mas muito sinceramente ainda me sinto aflita só de falar.

Muito obrigada

Bem hajam

Paula

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Histórias de um passado em Moçambique - "Aterragem Forçada na Lagoa Pati" (versão César Morais)

Não resisto à tentação de partilhar esta "Aventura" em Moçambique. A Isabel Ribeiro lembrou-ma.

Fui buscá-la ao Blog da Luísa Hingá, para onde lha enviara há tempos.

Blog Voando em Moçambique

Estavam a acabar as férias. Recomeçavam as aulas no Liceu 5 de Outubro, o único em todo o Moçambique, na época. Tínhamos de voltar a abalar para Lço. Marques.

Eu voltava, uma vez mais, para casa do Sr. Abrunhosa, na 24 de Julho, nº 49.

O dia do “embarque”, no aeroporto de Quelimane estava marcado com antecedência. O tempo estava a pôr-se chuvoso, o que era “chato” para se andar de avião. Já tínhamos feito 4 vezes aquela viagem entre Quelimane e Lço. Marques. Sempre que íamos para, ou vínhamos, das aulas. A distância não permitia outro meio de transporte.

A DETA tinha uns aviões pequenos, que “dançavam” muito nos “poços-de-ar” e, faziam muito “mais esforço” a subir e a descer… Qual seria o que nos iria calhar desta vez?

Bom. Este avião vinha do Norte, de Nampula, já com alguns estudantes e, seguiria connosco, reco-lhendo mais alguém na Beira e, se calhasse... em Inhambane também.

Chegara o dia. Lá fomos para o aeroporto (era o “aeroporto velho” ainda). Estávamos lá todos, no bulício habitual destas chegadas e partidas. Os passageiros mais as famílias e amigos… mais os que por profissão a isso eram obrigados… e, vários curiosos. Havia uma série de coisas para fazer, antes de “embarcar”. Meu pai foi tratar disso.

Chegou algum tempo depois, mas... para dizer que o avião tinha chegado com uma avaria e que estavam a tratar disso…

-“Bolas! Ir num avião que acabava de chegar, avariado!!!!... Não me senti especialmente feliz com a notícia.”

Bom… o pior é que passada cerca de uma hora, nos vieram dizer que a avaria exigia uma peça nova, e que ela teria de vir de Lço. Marques… pelo que o voo ficava adiado.

Uf!... Pelo menos já não íamos naquele dia! Com uma avaria remediada, se calhar, à pressa!...

Voltámos para casa… mais uns dias de férias… Bestial!...

Dois ou três dias depois, com céu meio encoberto… lá voltámos ao aeroporto…

Desta vez era para valer mesmo. A peça tinha chegado e até tinha vindo com ela um Engenheiro da DETA, para corrigir a situação. Ele regressava a Lço. Marques connosco.

- “Todos a bordo!”

Fiquei sentado no último banco cá atrás, do lado direito da cabine… o único duplo. Mas fiquei junto à janela, donde podia ver tudo lá para baixo pois ficava atrás da asa direita. Ao meu lado ficou sentado um “miúdo”, também estudante, cujo nome e proveniência já me não recordo… e também, o tal Engenheiro da DETA.

Hoje ao ver uma réplica do Junker no Portugal-dos-Pequenitos em Coimbra… admira-me o quão pequeno era aquele avião… e como era pequena a cabina e acanhados os lugares para os passageiros. Na altura achei-o, com prazer… um avião bem grande, com uma cabina bem espaçosa… comparando-o com os outros em que já fizera aquela viagem antes… É giro ver como são diferentes as perspectivas, de acordo com as transformações que nós próprios vamos sofrendo!...

No banco à minha frente sentou-se a D. Ana do Chinde (que só agora fiquei a conhecer, ao ler o extracto do livro do Comandante Faria Peixoto). Vinha com uma perna engessada (provavelmente partida…) e que ajeitou ao lado do banco à sua frente. Era mesmo uma pessoa alegre e comunicativa.

Levantámos voo e seguimos viagem, impecavelmente, com bom tempo e, rapidamente estávamos acima daquelas grandes nuvens muito brancas e resplandecentes ao sol, desenhando aqui e ali formas variadas, com pequenos nichos de sombra, a dar-lhes aquela perspectiva tridimensional maravilhosa. Voávamos dentro de um pequeno-grande mundo virtual… que estava mesmo ali!

Parámos na Beira. Sempre uma delícia sair do avião!... Muito melhor do que quando entramos… Terra firme!... vida e movimento!... O calorzinho de “lá-de-fora”!... andar, ver e contactar com pessoas e paisagens diferentes…

Voltámos ao voo, a caminho de Lço. Marques… das aulas… das jogatanas muito disputadas ao berlinde, nos intervalos… dos jogos do “paulito” na Rua Coronel Galhardo por trás da 24 de Julho, com a “malta” (o Manel – Cara-Suja, o Rodrigo Tudela, o Nuno Revés, e às vezes outros que se nos juntavam) … das cowboiadas nas matinés de sábado no Scala, à borla, naquela “nossa” fila do balcão, com direito a filme duplo, mais um episódio do Super-Homem, mais aquele batido de sorvete e coca-cola na Socigel, naquela esquina para onde corríamos no intervalo da matiné… (era uma fila atribuída aos Cabaços e amigos – o Zé Luís Cabaço, o Manel Jorge, o Márito e a Nélita)…

Bom! Mas surpresa!... Estávamos a perder altura de forma controlada e íamos aterrar de novo!... Seria Inhambane?...

Era Mambone. Um aeroporto desactivado. Aterrava ali pela primeira vez. Bestial! Mais um aeroporto conhecido!... Era uma pequena pista (mal amanhada) e uma palhota grande, com espaços para as pessoas poderem estar… com bancadas de madeira… e um compartimento fechado, onde havia um telefone.

Tínhamos parado para que a tripulação ficasse a saber bem como estava o tempo entre Inhambane e Lço. Marques.

Havia um ciclone que se mantinha nessa zona. Ainda bem que o Comandante Nogueira tinha metido na Beira, gasolina em quantidade francamente superior à habitualmente necessária, pois iríamos ter assim, maior disponibilidade de recursos para enfrentar o mau tempo.

- “Tudo p'ró avião!”

E aos “tropeções” na pista de Mambone lá levantámos voo… (o último daquele Junker… que até tinha na altura, a mesma idade que eu… 11 anos).

O tempo estava magnífico… radioso…

… Bem à nossa frente! … De repente!... Desenhou-se o horrível!...

Uma enorme massa de nuvens cinzentas e negras… estendendo-se de horizonte a horizonte…em direcção às quais, estávamos inexoravelmente a voar…

Era nítida a diferença entre o espaço limpo, luminoso, ensolarado e rico daquelas nuvens, cúmulos majestosos, em que agora voávamos e aquela enorme massa cinzenta-negra, bem ameaçadora, em direcção à qual estávamos a avançar a grande velocidade.

Estamos tramados! Vai começar a “dança”! – pensei.

Os 3 motores do Junker mantinham a sua toada, ronronando de forma uniforme… a que já nos habituáramos…

Bom! Começou! Entrámos nas nuvens negras! O avião começou logo a sacudir-se… a abanar… e começaram os malditos poços-de-ar…de vez em quando lá tínhamos aquelas quedas-desamparadas… para logo depois ficarmos pregados nos lugares com o avião a retomar a altitude a toda a força dos seus três possantes motores da Junker.

Sentimos o avião a lutar para subir acima daquela massa de nuvens ameaçadoras… Continuavam as sacudidelas, abanões e poços-de-ar… mal saíamos de um, caíamos logo noutro!...

As pessoas começaram a enjoar e a vomitar nos respectivos sacos, que depois punham nas redes por cima das cabeças, já fechados e cheios.

Alguém precisou de ir ao WC, um pouco atrás do nosso banco… quando de lá saiu ficou um rasto algo mal-cheiroso… que acabou por passar…

O avião não conseguiu (ou não quiseram forçá-lo a isso) sobrepor-se às nuvens do ciclone, e à alti-tude a que voávamos viam-se em baixo, só copas-de-árvores-enormes e… água. Os terrenos que sobrevoávamos já estavam encharcados com aquela chuva ciclónica.

Lembro-me de pensar como seria bom que aterrássemos depressa para que aquilo tudo acabasse. Estávamos, de repente, todos exaustos de tanto abanão… de tanta tensão, com aquelas quedas bruscas e subidas também bruscas…

De repente!

- “Rezem meus filhos que vamos morrer! Avé Maria, cheia de Graça…”

A D. Ana do Chinde, mesmo à minha frente soltara este grito, começando logo a rezar… e nós todos a segui-la na oração e a responder-lhe alto nas – “Santa Maria, Mãe de Deus…”

Olhei de imediato para o meu motor (o da asa direita) e estava tudo bem. Foi quando consegui, apesar dos abanões, espreitar para o motor da esquerda… que percebi – estava parado!!!! Mas o Junker tinha 3 motores… O avião mantinha-se impecável no seu ímpeto selvagem a subir rapidamente quando recuperava de um poço-de-ar… os abanões e sacões eram os mesmos…

- “Santa Maria, Mãe de Deus…”

Pronto! Isto está mesmo mal! O motor da direita, ali mesmo a meu lado, “resfolegou”… ainda ten-tou… mas acabou também parado!!!... Como estaria o motor da frente?????

Também parara...

Aí vamos nós a planar… mas super-exaustos para pensarmos em alguma coisa… e anestesiados pela oração…

- “Avé Maria, cheia de Graça…”

Lá em baixo, agora mais nítido… era só água e copas-de-árvores… copas-de-árvores e água… chovia torrencialmente, relampejava e o avião sacudia-se numa “dança-maluca”…

- “Uiiiii!!!... Um poço-de-ar bem maior… em que o avião “parecia-que-se-tinha-dobrado-a-meio-e-descido-a-pique”… para endireitar-se depois… mas sem ter feito então, aquele potente esforço motorizado habitual para retomar a altitude…

- “ Santa Maria, Mãe de Deus…” Continuávamos todos a rezar. Tinham-nos mandado apertar os cintos. Nós naquele banco duplo, não os encontrámos. O Engenheiro fincou os pés na base do banco da frente e agarrou com força o meu companheiro, ao seu lado. A mim aconselhou-me que me segurasse ao ferro horizontal das costas do banco da frente e que baixasse a cabeça.

- Uiiii!!!... Mais uma vez aquele frio horrível na barriga, produzido por nova queda aparentemente a pique, devida a novo poço-de-ar e mais uma vez o avião a endireitar o nariz e a reequilibrar-se naquela barafunda infernal… mas sem voltar a ganhar altitude…

- “Ave Maria cheia de Graça…”

Já estávamos bem baixos… A aterragem estava eminente… Chovia torrencialmente… O avião sacudiu-se ao cortar os ramos de uns coqueiros e algumas árvores com as asas e os estabilizadores do leme e…

Buumm!...Buumm! Esssssssllslslsls!... Silêncio!...

Doía-me a cabeça à frente e atrás… das pancadas que terei dado no ferro do banco da frente…mas… de resto tudo bem! Logo apareceram os tripulantes com as caras ensanguentadas, com vários lenhos, escoriações e cortes… mas “completamente bem”!

Todos bateram as palmas e todos se levantaram a abraçar-se.

O Engenheiro com alguma dificuldade, pois escorregara e magoara uma perna debaixo do banco da frente do lado esquerdo da coxia central… a ponto de partir o banco. A D. Ana, com a sua perna engessada, escapara ilesa e fazia por se levantar e felicitar efusivamente os pilotos e todos. Estávamos todos bem!

O avião “sossegara” de vez! Lá fora só chuviscava e nem estava uma tarde muito escura!...

Com a violência do embate...os sacos com vómitos caíram de cima das redes e espalharam o con-teúdo por onde calhou. A porta do WC tinha-se partido… os cheiros misturaram-se e eram nauseabundos…

Vomitei! Por certo pelo cheiro… pelos nervos… pelo fim daquela tensão toda.

Abriram-se as janelas de emergência para ventilar… saíram os maus cheiros, mas entraram nuvens de mosquitos…

A porta do avião abriu, não sem alguma dificuldade.

Um ou dois dos tripulantes saíram, pois tinham avistado umas pessoas, por certo habitando ali por perto, que teriam presenciado a queda do avião. Mas voltaram sem terem encontrado ninguém, nem habitações.

Recolheram-se as bolachas, merendas e garrafas de água ou sumos que as pessoas levavam. À cautela.

Nós os miúdos, acomodámo-nos nos bancos em que vínhamos para não atrapalhar os movimentos e deliberações dos adultos. A noite caíu rápida. Acenderam-se candeeiros a petróleo para não gastar as baterias… necessárias para pedidos de socorro, pela rádio, na manhã seguinte.

Para os mosquitos da Lagoa Pati, em cujas margens tínhamos aterrado… estava a ser um festim… mas a cada palmada também matávamos aos seis ou sete de cada vez…

Os calções curtos e balalaica de manga curta que trazia… por mais que me enrolasse no meu canto do banco duplo… não me conseguiam livrar minimamente daquele feroz bicho da selva africana.

Os grilos, as rãs e a restante bicharada da zona, ia enchendo a noite de ruído… mas ruído do bom… ruído bem terrestre e conhecido… que nos encantou.

Olá! Estavam umas luzes lá fora a aproximarem-se de nós! Alguém vinha ter connosco!

Era um professor, regente escolar, de uma Escola próxima, que tinha sido alertado pelas tais pes-soas que tinham presenciado a queda do avião, e que já tinha enviado “estafetas” a comunicar a nossa situação e localização à Administração de Macia.

E… Maravilha! Trazia leite e chá quentes, em garrafas térmicas, e mandioca cozida (sem sal). Coube a cada um de nós uma chávena de leite quente (e chá se quisesse), e duas mandiocas cozidas. Huum!... Uma delícia!... Mesmo sem sal…

Tudo na maior!... Se não fossem os mosquitos…

Dormimos o que pudemos.

Madrugada bem cedo chegaram 3 a 4 Jeeps que desceram a mata até bem perto do avião, com pessoas da Administração de Macia, com mais leite e chá quente, pão, bolos e bolachas… Ninguém passou fome mesmo…

Agora é que podíamos ver bem o avião. Só tinha os estabilizadores do leme da cauda esfrangalha-dos. O trem de aterragem, partido no primeiro e estrondoso embate, tinha ficado uns 100 metros atrás…o avião tinha deslizado “de barriga”… e parado a outros 100 metros das primeiras árvores em frente… Perícia do Comandante Álvaro Nogueira e... Milagre para todos!...

A caravana partiu aliviada e bem disposta para Macia. A Esposa do Administrador e as outras Senhoras tinham preparado um “lanche-almoçarado” volante, em grandes mesas. Comemos e bebemos refrigerantes e sumos à vontade.

- “Quem é o estudante António César Morais?...”

- “Sou… eu! Disse, admirado…

- “Venha daí, que vai ser o primeiro a ser evacuado! A avioneta já está pronta!

- “Mas… eu? … Porquê?... Assustei-me… (Avioneta!!! NÃO!!! Eu NÃO!!! De avião outra vez!!!!? Não! Não!... Mas que fazer para o evitar????)

- “Sim. O seu pai está no aeródromo do Bilene, à sua espera e pediu-nos para que fosse o primeiro a ir.”

- Mas… de avião?!!!...

- “Sim. O ciclone cortou a estrada entre Macia e o Bilene. Está tudo inundado. Tem de ser de avio-neta.”

Enfiaram-me um enorme casacão de couro, que me tapava até aos pés, e um capacete também de cabedal, de aviador, com óculos de protecção (daqueles antigos)… Bom até já me estava a sentir vaidoso com aquela fardeta, a sério, de aviador…

Sentei-me no lugar da frente, amarrado com vários cintos de segurança… com uma “desgramada” de uma “manete” de comando entre as pernas… que afastei o mais possível dela, durante toda a viagem (para não atrapalhar minimamente o comando da avioneta)… o piloto sentou-se no lugar de trás…

E lá fomos. A avioneta rolou na pista de Macia e… até rolar e parar na pista do Bilene… eu mal ousava esticar o pescoço para ir vendo os terrenos alagados que íamos sobrevoando…

E no Bilene tinha, claro, o “Pai-mais-querido-do-mundo” à minha espera.

Foi quando nos fotografaram para o Notícias.

Ele tinha sido o único pai que soubera do acidente na própria tarde do dia anterior, porque, estando de serviço em Lço. Marques, tinha ido ao aeroporto esperar-me. Tinha sabido da queda do avião com os motores parados por falta de gasolina… e só nessa manhã soubera que estávamos todos bem. Passara uma noite atroz!

Viemos de carro do Bilene para Lço. Marques. Dois dias depois estava de cama com uma crise valente de paludismo, que “graças-a-Deus” foi rápida e eficazmente debelada só com uma semanada de cama.

César Morais 2007

Histórias de um passado em Moçambique - "Aterragem Forçada" (versão Cmdt.Faria Peixoto)

Também me parece interessante ouvir este relato de um camarada da D.E.T.A...

Mas com o meu colega, o Comandante Álvaro Nogueira, da D.E.T.A. deu-se um acidente de uma categoria à parte.

É um desses casos que ilustra do que um homem é capaz, quando perde o domínio da máquina.

Foi um Junker, um avião que depois de carregado pesa bem mais que dez toneladas. Era a altura da abertura das aulas no Liceu de Lourenço Marques e iam quinze estudantes e uma senhora, a D. Ana do Chinde, muito conhecida pela sua coragem e desenvoltura na vida.

Voavam da Beira para Lourenço Marques e o vento sul soprava fortíssimo. Começaram a aparecer nuvens negras, mas isso pouco afectava um bicho daqueles. O avião foi subindo, subindo, até que atingiu a altitude ideal para fazer o seu voo. Continuou, mas qualquer coisa de grave estava para acontecer.

A tempestade começou a tomar proporções assustadoras.

Ao fim de três horas, quando devia estar já próximo de Lourenço Marques, o avião era terrivelmente sacudido e quase que havia pânico a bordo. O Nogueira, através de azimutes constantes verificou que sofrera uma deriva extraordinária para a direita. Corrigiu o rumo e continuou na esperança de depressa alcançar Lourenço Marques. Mas ao fim de mais uma hora verificaria que se encontrava ainda muito distante.

O Junker é um avião bastante grande. Parece uma caixa e é muito vagaroso, de maneira que quan-do o vento lhe pega, é um instante enquanto o coloca numa posição que a gente não quer. Foi o que aconteceu. o avião devia estar muitíssimo à direita e então o Nogueira resolveu rodar noventa graus à esquerda do rumo que segui, pois quando baixasse teria o mar à sua frente sem obstáculo nenhum.

O tempo foi passando e andavam já no ar há perto de cinco horas. Vento fortíssimo e traiçoeiro conduzira para uma situação desesperada. Então, resolveu descer, e não tinha iniciado a decida há muito, quando os motores pararam. Três motores! Ele sentiu-se perdido. Quase, porque um piloto quando tem fibra, nunca se sente perdido.

E era um casarão enorme a vir por ali abaixo, sem apelo nem agravo. Tinha mesmo que vir. A chuva e o vento fustigavam-no numa sinfonia terrível.

Dizia-me mais tarde o Nogueira que só via chuva, relâmpagos e ouvia o avião a bufar. É que quando um avião vinha lá das alturas, naquelas circunstâncias, com a diferença rápida nas densidades da atmosfera, os nossos ouvidos sentem o avião bufar mesmo. Toda a atenção do piloto se concentrou para que, logo que visse terreno, fosse de que espécie fosse, meter lá a máquina, sabendo de antemão que a partia mesmo, mas tentando safar os seus passageiros.

E safou-os! De repente, já muito baixo, a razar o chão, viu água numa lagoa, à beira-mar, que tinha uma margem formidável e que recebeu o avião de braços abertos. Descoberto aquilo, foi meter um pé no pedal, o avião deslizou de lado, endireitou-o, perdeu a velocidade, bateu com a cauda num cajueiro - onde ficou - e bateu pesadamente à frente, jé em terreno firme. O choque ainda foi grande e o avião ficou inutilizado. Estava apenas a vinte minutos de Lourenço Marques. A miudagem tinha antes sido bem amarrada nos seus lugares, mas houve uma tal de Malicha, que era uma miúda levada da breca, que tinha desapertado o cinto por sua alta recreação. No momento da aterragem voou por cima das cadeiras todas, de unhas abertas e foi cravá-las em desespero no pescoço e braços de uma colega, Fernanda Marçal, que ia bem à frente.

Foram as únicas que tiveram ferimentos. Os tripulantes Nogueira, José Rodrigues e Trancoso, como tiveram de encarar de frente a situação por que passavam, foram dar as respectivas caras bem naquele imenso tablier e lábios inchados e arranhões não lhes faltaram.

Mas tudo correra bem. Passaram depois uma noite diabólica ali ao pé da lagoa, onde os mosquitos zumbiam aos milhões. Pela madrugada vieram socorros. Alguém dera pelo que se passara e foi à Administração mais próxima avisar. Foram todos transportados de carro até Lourenço Marques e aí seria a Rádio a tirar partido do acontecimento sensacional. As miúdas foram entrevistadas e teceram elogios formidáveis ao piloto. A D. Ana do Chinde, então exuberante como era e contente como estava por se safar daquela, dizia: "Só a este belo pessoal da D.E.T.A. se deve não ter havido desastre fatal! Todos devemos a vida ao sangue frio e à pericia do Comandante Nogueira!" Quando chegou a vez deste falar, foi pior.

O locutor procurava tirar o máximo partido da situação, perguntando-lhe quais as suas reacções naqueles momentos terríveis, com os motores parados ainda no meio do temporal, e se ele tivera esperanças de não matar toda aquela gente, Então ele, Nogueira, deve ali mesmo ter recordado os maus momentos por que passou e deve ter sentido o tal nó na garganta. Sentiu uma emoção grande e só disse: "Tivemos sorte!" As lágrimas rolaram pela cara abaixo e não pôde dizer mais nada.

Ele portara-se à altura!

.......................Cmdt.Faria Peixoto)............

enviado por: César Morais

terça-feira, 22 de junho de 2010

Histórias de um passado em Moçambique - "Sou Feliz"

Sou Feliz

Sou Feliz porque nasci em Inhambane
porque Inhambane é o meu chão
porque é a Terra da Boa Gente
e Terra da Boa gente significa na Língua Gitonga "entra para dentro de casa"
convite que os habitantes fizeram aos portugueses que ali aportaram
para se resguardarem da chuva e Camões canta em "Os Lusíadas
porque a minha Língua é a Língua Portuguesa
porque a Língua Portuguesa me deu uma Pátria
porque chapinhava nas águas da chuva ao sol e ao vento
porque depois apanhava filária tratada com cortes de lâmina e banhos de águas de plantas africanas colhidas no mato
porque apanhava matacanhas curadas com cinza quente depois de tiradas com um alfinete por desinfectar
porque andava descalça na areia a ferver sem me importar com os picos bem afiados
porque comia mangas verdissimas que provocavam febrões a valer
porque comia comia jambolão ,cigoma,zirriva,maçãzinhas ,moranguinhos bem maduros da ganga ou verdes com peixe
porque saltava o muro das minhas vizinhas "nunos"que me davam linfete e bolinhos de coco
porque fui mãe de cinco filhos todos amamentados com chá de ganga ,amargo como fel que me punha os seios como cabaças
porque assim tinha leite com fartura sem que beber cerveja preta que detestava
porque deste modo o leite nem encaroçava os seios
porque durante seis anos guiei à revelia
porque fui criada entre africanos com quem joguei à bola e fugia para a praia à cata dos caranguejos verdes
porque sou do tempo do xitimela até Inharrime para aí se apanhar uma camioneta "o tornicrofe"semelhante a uma carrinha celular todinha em ferro e com janelinhas no topo para aliviar o calor dos viajantes
porque fui aluna do Colégio das Freiras Franciscanas onde aprendi Francês a sério com uma freira educada no Sacré Coeur em França
porque sou do tempo do XINKWERRENGUE aos sábados onde os brancos iam dançar com as meninas da cor do ébano à socapa da família tranquila em casa
porque o meu molungo engenheiro ,um agnóstico ferrenho mas um humanista de verdade nunca levou uma quinhenta pelos projectos para igrejas,mesquita ,escolas,colégio,maternidades ,poços para os africanos ,maternidades
porque tive um pai de "letras gordas"que no primeiro dia que dei aulas me disse para nunca me esquecer que nascera num país de muitas raças e religiões e pelo facto de ser branca não tinha o direito de me impor ,mas respeitar as diferenças
porque tive uma mamana que me criou e só queria que a sua "sanana "viesse para o xilunguine dos brancos de primeira
porque o cipaio Geremias me adorava e não dizia à minha mãe que estava num galho a comer amendoas vermelinhas cheias de fios saborosos
porque fisgava as galas galas de cabeça azul a passarinharem pelos muros
porque cada filho plantou uma árvore
porque o mainato Júlio corria pelo quintal com o meu filho para respirar nos acessos de tosse convulsa
porque em Inharrime há poços de petróleo selados desde 1948 pela Golf Oil
porque fartei -me de ver pombos verdes a esvoaçar de coqueiro em coqueiro no Mocucune
porque sou branca de segunda classe
porque fui professora de alunos que hoje ocupam cargos políticos no Moçambique Moderno
porque tenho paludismo crónico que de tempos a tempos me dá noticias
porque vi tubarões velozes ,dugongos,peixes voadores,peixes sapos ,magajojos a espichar ranhecas sempre que pisados armados em espertalhões para não serem caçados
porque comi maningue mandioca torrada e cozida ,matapa,bagias maningue chamussas ,casquinhas de caranguejo ,linfete ,torradinhas de sura ,coco lenho com acúcar ,castanha de cajú a estalar debaixo de uma chapa de zinco
porque as minhas amigas eram brancas,pretas,mulatas e mussulmanas
porque andei de batelão ao ritmo da "Maria Tereza zikuta
porque os madalas e cocoanas eram respeitados
porque o meu filho mais velho não fez aquela guerra inútil que só serviu para mutilar corpos e almas
porque vivo num país onde toda a gente ralha e com razão
porque nunca fui uma" burguesa empatée"
porque o artigo 4ºdos acordos se esqueceu de "respeitar bens e pessoas"e aprendi a comer o pão que o diabo amassou
porque tive a capacidade de sobreviver à marginalização
porque fui conotada como "colonialista"sem o ser
porque este País aprendeu a lição e lutou com garra pela causa de Timor
porque ainda viajei na frota colonial por mares nunca dantes navegados
porque este país continua a ser um País "mais desvairadas gentes"
porque sei onde fica a Ponte Salazar
porque também sei cantar "Vila morena"
porque prezo o respeito pela instituição ESCOLA como fonte do SABER
porque ainda tenho respeito por valores humanos
porque revisitei INHAMBANE onde fui carinhosamente acolhida
porque visitei "pertenças minhas "com estoicismo
porque nada posso fazer pela mediocridade ,nem pelos pavões de brutas bombas .

Sou realmente feliz por estar viva ,sã e ser uma avó de netos que me amam

SOU REALMENTE FELIZ.

Maria Fernanda de Sá Pires

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Histórias de um passado em Moçambique - "MÃE ÁFRICA"

MÃE ÁFRICA



QUE FAZER DE TANTA SAUDADE
VENTOS PRA LONGE ME TROUXERAM
VIDAS SEM FIM SILENCIARAM.

QUE FAZER DE TANTA SAUDADE
PRECISO ESTAR PERTO DE TI
PRA CUIDARES OUTRA VEZ DE MIM.

Ó MÃE ÁFRICA
COBRE ESTE FRIO TIRITANTE
BEBE AS LÁGRIMAS QUENTES
CALA SOLUÇOS ASFIXIANTES

SOU UM BARCO SOBRE O TEU AZUL
GAIVOTA DE OLHOS FECHADOS
FAROL EM VOO FINAL.
MÃE ÁFRICA
QUE FAZER DE TANTA SAUDADE
DOS LABIRINTOS SOLITÁRIOS
ESTRELADOS,CHORADOS,MAGOADOS.



MARIA FERNANDA DE SÁ PIRES


Exmos Srs


Aqui vai um poema sobre Moçambique para o vosso desafio literário dirigido a ex-residentes ou naturais de Moçambique. Espero que seja uma boa contribuição para divulgar a nossa terra e transmitir aos outros o que ela tem de especial.

Bem hajam

Mª Fernanda

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Histórias de um passado em Moçambique - "Nunca mais me chames mano"

Há muito, muito tempo (mas, que raio, isto não me é estranho …, deve ser da velhice!), conheci em Lourenço Marques [isto de maputices – vamos deixar para quem de direito], uma das mais belas criaturas (seres criados, reais, que existiram, não faziam parte dum delírio), mas onde tive a oportunidade de tocar, de cheirar {cheirava a côco}, e que fez desabrochar em mim uma grande e única paixão (chiu, não digam a ninguém, senão temos milando), mas – e é sempre a mesmíssima e repetida questão do “MAS”, começou a tratar-me por MANO. Ela: mano pra qui, mano pra li; Eu: raio que o parta o mano. E esta coisa do mano não deixava a diligência levar o postilhão (correio em linguagem arcaica – é que eu também já sou arcaico, eheh eheh) à boa morada.


Eu nessa altura estava na guerra (isto foi lá por volta de 1972/3 – não sei se sabem que Portugal estava em guerra para proteger um território que não era nosso mas que fazia de conta que era e muita malta minha amiga morreu, e outra malta porreira [quando a gente morre somos todos porreiros] também morreu e depois houve uma reunião em Luzaca e pimba o melhor era cavar dali pra fora……….), fazia parte duma companhia de Comandos (não posso dizer a qual, não vá o inimigo descobrir e descodificar a mensagem e sermos localizados e pimba, chuva de morteirada – linguagem corriqueira nesse tempo), e eu só pensava nela, de dia e de noite era ela que invadia constantemente a minha pobre mente. De tal forma que nem o barulho das morteiradas e dos canhões sem recuo (umas armazinhas que se apanhassem a gente em fila matavam logo a fila toda – parece-me que era por uma questão de economia), me incomodavam. Mas ela continuava com o mano e eu desesperado, e ela contestando: “quizas, quizas, quizas” (Nat King Cole).

Deu-se a revolução dos cravos (flor - (Dianthus caryophyllus) e não o nome que se dá aos pregos usados nas ferraduras dos cavalos, nem o cravo, tipo de afecção da pele), e a mulher dos meus sonhos – no verdadeiro e também no lato sentido da palavra (porque tanto sonhava com ela, acordado quanto a dormir), desapareceu.

Ela – A MANA, fugiu, perdeu-se num horizonte onde a eternidade me parecia irrisória e onde um dia se revestia de uma aparência profética.

Ficou comigo até hoje a dor enraizada na memória eidénica das minhas células fasciais, a mágoa de nunca ter tido a coragem de reverter os indícios e deixar que o postilhão tivesse chegado à boa morada.

O tempo passou, aquele rosto lindo, aquele sorriso sedutor, aquele cheiro a óleo de praia e aquele corpo que nunca pôde existir para além dum simples estrato onírico e de uma ténue esperança sonhada, ficou em mim, tal magma incrustado e calcinado, acabou por se sedimentar, mas nunca desapareceu.

Trinta e sete anos se passaram. De repente, do nada surge a magia da obra criada. O fantasma adormecido no berço do meu ser inerte faz erupção, emerge e perturba, atordoado tenho a impressão de acordar finalmente dum marasmo que nunca mais deixava de me perseguir. Uma mensagem dela – no facebook ®. És mesmo tu … sim, agora tenho a certeza, olhei para as tuas fotos e reconheci-te.

Ela encontrou-me. Como a vida tem estes paradoxos. Eu à procura e é ela que me encontra. Um percurso de trinta e sete anos onde tudo o que fiz e não fiz, tudo o que pensei e não pensei, dediquei, consciente ou inconscientemente, implícita ou explicitamente a esse cheiro que teimava em não me largar, a esse corpo que teimava em viver em mim, a esse riso que teimava em gargalhar aos meus ouvidos.

Precipitei-me como um adolescente (não é que não seja ainda um adolescente com 60 anos), e respondi à solicitação dela. Dei-lhe o meu email, o meu número de telemóvel, o nome do meu cão, do meu gato, tudo para ela me contactar logo e o mais rápidamente possível.

No dia seguinte ela ligou para mim. Chatice, das chatices, não podia responder. Estava o padre a falar (bla bla bla bla – amém) quando vejo um número desconhecido. Estava num enterro dum grande amigo meu.

Ao meu lado a esposa, nem sequer podia dizer, olha desculpa tenho de ir rapidamente à casa de banho porque parece que estou com uma diarreia. Não é que não pudesse, mas ali, naquele deserto de campas para onde todos nós caminhamos paulatinamente como lenires (lenir, mesmo que abrandar, suavizar, lenificar. Também é nome próprio (geralmente feminino), “eu espero, de coração, que todos tenham um lenitivo, para seus sofrimentos” (frase), onde é que eu ia? Ah, sim, vi o número e fiquei em pulgas (ansioso, com o coração a bater e a querer sair da caixa torácica), será o dela, mas este enterro nunca mais tem fim – “agora o Salmo ….”, “mais o Pai Nosso”, enfim, não tenho nada contra isso, antes pelo contrário, mas logo naquele momento, e o telefone vibrava, vibrava, vibrava, e eu também vibrava, vibrava, vibrava… de tal modo vibrava, que aquele corpo que sempre surgia no meu fantasma idealizado como algo de estável e de sólido, começou também a vibrar. Já nem conseguia mais idealizar esse ser magnifico de formas nunca dantes existentes (Camões? Cavaco Silva, Cristiano Ronaldo?), e essa figura lendária e romanesca, de repente parecia-me difusa, como se os olhos da minha mente estivessem embaciados, a inquietação transformou tudo aquilo ali numa utopia e acabei por me precipitar para o exterior e sentar-me dentro do meu carro para não ter nenhum enfarte no caso de ser mesmo verdade.

Liguei apressadamente, o telemóvel escorregou-me das mãos, eu voltei a tentar ligar de novo, era ela, aquela mesma voz, aquele mesmo sorriso, ela teve de repetir, sou eu, a … e aí eu disse-lhe todas as baboseiras que sempre tive vontade de dizer há trinta e sete anos atrás e nunca tinha tido coragem.

Ela ouviu sem saber bem o que dizer. Sorria às gargalhadas, aquelas gargalhadas que tanto me fizeram sonhar, que tantas lágrimas me fizeram perder e eu pedi-lhe, quase a implorar-lhe de joelhos – NUNCA MAIS ME CHAMES MANO!
 
Henrique Dos Martires

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Histórias de um passado em Moçambique - O "Velho da viola",

Deveria andar pelos meus 10/11 anos......portanto aí pelos anos de 67/68...

A minha rua era fantástica! Uma rua sem saída onde moravam algumas famílias numerosas: os Larsen eram 8, entre os vinte, vinte e poucos e os 4 anos.....os Correia Mendes, com menos diferença de idades e adolescentes.....a minha mãe com uma ninhada de cinco mafarricos todos seguidos e mais umas quantas famílias com um/dois filhos.

Mas, só a família Larsen e nós já enchiamos aquela rua.........a minha querida Rua Alfredo Keil, em Lourenço Marques, oposta ao Hotel Santa Cruz na 24 de Julho e onde ficava o modesto e pequeno Restaurante Smarta que, por acaso nos aviava as marmitas todos os dias....

Aquela rua era mágica.....ou, pelo menos assim a recordo, pois o tempo tem este sortigélio de tornar delicioso, maravilhoso, misterioso até, o nosso passado longínquo,trasformando devargarmente em aguarelas suaves e nostáligicas, mesmo as coisas menos boas que pudéssemos ter vivido.

Ainda consigo ouvir a algazarra e bolício em que aquela rua se transformava ao fim da tade quando, já livres dos trabalhos de casa e outras demandas que as crianças naquele tempo sempre tinham, começavamos a encher a rua e a combinar jogar ao ringue, ao "aí vai alho"............ao paulito , ao berlinde e às escondidas ou ainda às batalhas campais num terreno abandonado ali por trás, mesmo junto às traseiras da Associação dos Naturais de Moçambique.

A salpicar estes fins de tarde alegres e barulhentos, por vezes, aparecia na avenida, um homem dos seus quarentas e tais a quem chamavamos o "velho da viola", cujos acordes, mesmo misturados com o barulho dos carros e da algazarra que fazíamos, sempre distinguíamos e nos fazia correr para a 24 de Julho atravessando para a faixa central em correria louca para podermos ficar o mais próximo possível do nosso "amigo" da viola.......

Ele sabia e gostava daquela criançada e ali ficava a tocar para nós, enquanto os seus bonecos, por si construidos, dançavam no chão pendurados por fios no braço da vilola....ele sabia fazer isso tão bem que pareciam pequenas pessoas de verdade e nós ríamos das piruetas e dos saltos que davam os bonecos de arames e paus, vestidos de trapos ......era um mestre aquele homem!

Um dia, postos estávamos neste delite que era sempre a aparição do nosso "amigo" quando, de repente, surgiu na faixa contrária em direcção ao Alto-Maé um jeep da Polícia Militar cheia de comandos que parou de repente saltando por cima do passeio central chiando ruidosamente os pneus, ao travar bruscamente. De dentro pularam, em completo estado de guerra, um monte de militares e desataram à bastonada ao nosso "amigo " da viola, sem dó nem piedade, para meu terror e espanto, fazendo-nos disparar em correia para o outro lado da avenida, onde ficámos a assistir incrédulos, sem saber o porquê daquele acto brutal, cruel e desumano.

O nosso amigo foi arrastado para dentro do jeep que, assim como surgiu, despareceu na avenida passando mesmo o sinal vermelho.

Ainda hoje recordo esta cena com uma tristeza imensa......um pesar e uma revolta enormes, pois o mundo, desde esse tempo e segundo o meu entendimento desde então, cresceu o suficiente para perceber que cenas destas continuam a contecer entre nós Humanos por este mundo fora, obedientes aos regimes e desobedientes à nossa Humanidade.....

Maria Victória Marinha de Campos

Histórias de um passado em Moçambique - O meu Primeiro Amor

Era uma vez, muitos anos passados, uma jovem menina de cabelos compridos e castanhos, que conheceu dois irmãos gemeos, de nomes Fernando e Armando. Moravam perto. E essa menina apaixonou-se pelo Armando mas nunca foi capaz de lhe dizer que ele era o seu primeiro Amor. Nesses tempos passados essa jovem obedecia aos pais e, era muito dificil ter liberdade de expressão. Os anos passaram e foi inevitavel um casamento com outra pessoa. Depois vieram os filhos e a vida seguiu o seu curso. Mais tarde e já sozinha soube que o Armando tambem tinha casado. E nunca mais o viu. Continua a pensar nele. Esta é a historia do meu primeiro Amor. Foi passada em Moçambique (Lourenço Marques/Jardim D. Berta Craveiro Lopes) e a minha maior esperança é que o Armando a possa ler.

Com saudades

Ilda Duarte

terça-feira, 6 de abril de 2010

Histórias de um passado em Moçambique - A minha escola da 1ª classe

Aos 6 anos de idade, decorria o ano de 1964, o meu Pai ( Sr. Jardim ) foi convidado para trabalhar como chefe de mesas no Motel da Inhaca.

E fomos…., como coincidiu com a minha entrada na escola, comecei o meu 1º ano numa escola muito particular.

Ou seja, não havia escola, havia professora , havia alunos , e havia uma arvore enorme onde nos sentávamos para ter a aula.

Para terem uma ideia , esta “escola “ ficava no cima duma montanha, a única da ilha, junto á “escola” havia uma igreja, o museu, e pouco mais.

Na nossa turma seriamos cerca de 20 a 25 alunos, os únicos “brancos” era eu e a professora.

Lembro-me que ia para as aulas descalço, de calções e troco nú, tinha de subir aquela montanha por uma estrada de areia vermelha que não tinha mais de 5 metros de largura.

Posso-vos garantir que por diversas vezes tive de parar para deixar passar cobras e outros répteis.



Fiz a 1ª classe na Ilha da Inhaca, uma experiência única.

Pedro Ramilo
06-04-2010

segunda-feira, 22 de março de 2010

Histórias de um passado em Moçambique - A minha carta de condução

Foi só na véspera do meu exame que eu consegui compreender a manobra para estacionar sem tocar no passeio. Diz-me o meu instrutor: Veja lá o que faz. Se for o Engº Lima, ele chumba-a. E então mulheres, quase nenhuma passa á primeira! Ok, então você faz-me sinal, para eu saber.

Chegou o grande dia, pedi no meu serviço, a Metalo-Mecânica, um bocado da manhã e lá fui para as Obras Públicas que também ficava na mesma rua Fernão de Magalhães.

Fui chamada e olhei para o instrutor ele fez-me o tal sinal e fiquei aliviada. Entrei no carro, o examinador ao meu lado e digo logo eu: Que alivio! Então porquê? Porque o meu instrutor fez-me sinal que não era o engº Lima. Arranque. Lá fui andando e pergunta ele:Então não gostam do Engº Lima? Digo eu: É porque ele é alérgico ás mulheres, chumba-as todas.

Lá fui andando e a certo ponto fiz um erro e diz ele: Vá lá, corrija! -digo eu: se fosse o Engº Lima, já estava reprovada. Lá fomos andando e então ele manda-me arrumar o carro entre dois , num espaço razoável. Concentrei-me, fiz marcha atrás e toquei no passeio.Digo eu: Mais uma asneira e então numa manobra que apesar de só a ter aprendido ontem me convenci de que a ia fazer bem! Se fosse o Engº Lima, estava feita!

Voltámos ao ponto de partida e diz ele: agora vai esperar um pouco para fazer o exame de código. Tive muito gosto em a conhecer e eu sou o Engº Lima!

Fiquei sem fala! Ralhei com o instrutor e ele coitado a dizer que tinha ficado convencido de que eu tinha percebido que era ele.

Daí a muito pouco tempo chamaram-me para uma sala onde estava o senhor e mais outros dois que riam a gargalhadas .Numa mesa estava um cruzamento e em cada esquina estava um carro. Pergunta ele: Se um destes fosse a senhora o que fazia? Respondo eu muito envergonhada e zangada e sei lá mais: Olhe senhor Engº Lima, se eu estivesse num dia como o de hoje, eu arrancava e os outros que fossem á vida! Um deles, rindo disse: É isso mesmo. Por outras palavras, mas é isso mesmo!!!

Vim embora, para o meu serviço, tinha passado pouco mais duma hora, e já com a almejada guia que me permitia conduzir!!!

Um abraço
Rita Botas

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Histórias de um passado em Moçambique - Um Grande Susto!!

No dia 7 de Fev., na clínica de Santa Isabel, nasceu prematuramente o meu filho. Tinha só seis meses e meio de gestação. Foi logo para a Missão de S.José, pois a clínica não tinha incubadora. E lá esteve dois meses e meio, chegando a casa no dia 19 de Abril, com 2,5k, dia em que a irmã, fazia 2 anos e no dia em que era suposto, ele nascer.


Durante esse tempo, eu saía do serviço na Metalo-Mecânica (era colega do Romão Félix) pelas 5 da tarde, rumo á Missão para ver o meu filho, todos os dias.

As condições naquele tempo não eram boas e eu tive muitas vezes o médico á minha espera, para me dizer, ou, que ele estava mal, ou que estava com uma broncopneumonia; noutras, já com a requisição na mão para eu ir ao Hospital buscar sangue, eles já estavam á minha espera. Isto tudo com pouco mais de 1k, quando aumentava 5g, era uma alegria.

Ainda hoje não sei se algum semáforo estaria vermelho. Não! Só podiam estar todos verdes! Com dois meses desapareceu da incubadora e as freiras, coitadas andavam num reboliço e só quando eu me sentei ao lado, já desesperada, o vi debaixo do tabuleiro da incubadora. Tinha rebolado e enfiou-se lá.

Hoje, graças a Deus, tem 38 anos e é pai de dois filhos lindos!

Esta é, portanto, uma história verdadeira e impossível de esquecer!

E curta, porque naqueles dois meses e meio houve ainda tantas histórias.

Rita Botas (08/03/2010)