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sábado, 26 de junho de 2010

Workshop / Oficina - Comida Moçambicana e Goesa

Workshop / Oficina - Comida Moçambicana e Goesa

Hummm.........que delicia.........

Data: Domingo, 4 de Julho de 2010


Hora: 15:00 - 18:00

Local: Sede da Acrenarmo - Leiria






Formadores : Nuno Sequeira (Restaurante Cardamomo) e Francelina Gomes


Data limite para inscrições: até 30 de junho

Preço: 30,00€/pessoa

Contactos para inscrição: Natália Sapinho - 912127746 - lenasapinho@gmail.com


Confecção de:


Entradas:

. Apa com Baji e salada Rait

. Batata doce frita

. Camarões fritos com alho



Pratos principais:

. Caril de amendoim com galinha, acompanhado por arroz branco

. Matapa



Sobremesas:

. Doce de mandioca

. Doce de grão


No final é oferecido um livrete com as receitas confeccionadas e outras.

Convívio da Acrenarmo no Badoca Safari Park - 17/07/2010





Caros Amigos,

Cá estamos de novo para nos juntarmos e fortalecermos ainda mais os laços que nos unem, e partilharmos a boa disposição que nos caracteriza.

Desta vez o convívio dos Naturais e Ex-residentes de Moçambique e amigos, será no Badoca Safari Park, em pleno Alentejo (Vila Nova de Stº André), entidade que estabeleceu um acordo de parceria com a Acrenarmo.

É um local muito bonito, onde a natureza é o elemento mais marcante.

A escolha do local foi propositada, de modo a permitir a muitos reverem alguns animais africanos, e não só, em estado selvagem. Animais como avestruzes, búfalos, gamos, girafas, gnus, impalas, muflão, palancas negras, tigres, veados, zebras, chimpanzés, babuínos, águias, falcões, burros, cabras, cangurus, iaques, lamas, ovelhas, papagaios, araras, catatuas, iguanas, tucanos, cegonhas, flamingos, lemures e muitos, muitos mais, farão as delícias de todos.

Também esta escolha visa permitir e incentivar as gerações mais novas para que se juntem a estes convivíos por forma a partilhar as experiências e vivências dos mais velhos. A convivência de gerações foi aliás uma das nossas principais motivações.

Por isso mesmo, pedimos a todos que divulguem junto dos amigos de longa data, e que apareçam com os filhos e netos neste convívio que, estamos certos, será do agrado de miúdos e graúdos.

Ambanine e Kanimambo

Acrenarmo



O Parque abre às 10h00, encerra às 18h00. Último safari é as 17h00.



HORÁRIOS DAS ACTIVIDADES

Safari:

Marcação por ordem de chegada / Saídas regulares.

Duração aproximada de 1 hora.

Apresentação de Aves de Rapina:

- 11h00 / 14h30

Duração aproximada de 30 minutos.

Sessão de alimentação dos Lémures:

- 11h45 / 14h00

Duração aproximada de 30 minutos.

Rafting Africano:

- 14h30-15h30


Por uma questão de logistica, apenas são aceites pagamentos por cheque ou vale correio



EMENTA

Entrada

Creme de Legumes



Prato Principal

Bifinhos c/ Cogumelos



Sobremesa

Salada de frutas



Couvert:

Pão, manteiga e azeitonas



Bebidas:

Vinho branco, tinto ou sangria (1 jarro/2 pessoas), sumo, água e café.

(Composição da Ementa: Couvert+entrada+1 prato+sobremesa+Bebidas)



Quem quiser ir carregado com cesta de piquenique, poderá fazê-lo, pois existe parque de merendas. No entanto, a Acrenarmo e o Badoca Safari ParK, não se responsabilizam pela guarda de objectos durante o Safari.



As inscrições são até 30/06/2010

Apenas são aceites pagamentos por cheque ou vale correio

De de 30/06/2010 a 10/07/2010 o valor terá uma penalização de 5,00 €/pessoa

Depois de 10/07/2010 não serão aceites inscrições



Para quem quiser deslocar-se de autocarro, os nossos amigos mensionados em seguida, disponibilizáram-se para nos ajudar e organizar o transporte.

De outros locais ainda não mensionados, agradecemos a vossa ajuda e disponibilidade.

Iremos indicando no nosso blog outras informações que surjam.

Por favor entrar em contacto o mais breve possivel.

• ATENÇÃO: O transporte não está incluido na inscrição.


Algarve............................Virgílio Comenda Pina......................... 965046455


Braga............................... Armando de Oliveira E Castro............ 966723945


Caldas da Rainha............. Isabel Seno (até 25 de Junho) ……... 919515995


Coimbra.......................... António Almeida (Tonito Almeida).. 967088533


Évora ...............


Guarda .............


Leiria............................... Graça Gaio ( ACRENARMO ) ............ 919889640


Lisboa ..............


Porto ...............


Setúbal .............


.......................

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Histórias de um passado em Moçambique - "Aterragem Forçada na Lagoa Pati" (versão César Morais)

Não resisto à tentação de partilhar esta "Aventura" em Moçambique. A Isabel Ribeiro lembrou-ma.

Fui buscá-la ao Blog da Luísa Hingá, para onde lha enviara há tempos.

Blog Voando em Moçambique

Estavam a acabar as férias. Recomeçavam as aulas no Liceu 5 de Outubro, o único em todo o Moçambique, na época. Tínhamos de voltar a abalar para Lço. Marques.

Eu voltava, uma vez mais, para casa do Sr. Abrunhosa, na 24 de Julho, nº 49.

O dia do “embarque”, no aeroporto de Quelimane estava marcado com antecedência. O tempo estava a pôr-se chuvoso, o que era “chato” para se andar de avião. Já tínhamos feito 4 vezes aquela viagem entre Quelimane e Lço. Marques. Sempre que íamos para, ou vínhamos, das aulas. A distância não permitia outro meio de transporte.

A DETA tinha uns aviões pequenos, que “dançavam” muito nos “poços-de-ar” e, faziam muito “mais esforço” a subir e a descer… Qual seria o que nos iria calhar desta vez?

Bom. Este avião vinha do Norte, de Nampula, já com alguns estudantes e, seguiria connosco, reco-lhendo mais alguém na Beira e, se calhasse... em Inhambane também.

Chegara o dia. Lá fomos para o aeroporto (era o “aeroporto velho” ainda). Estávamos lá todos, no bulício habitual destas chegadas e partidas. Os passageiros mais as famílias e amigos… mais os que por profissão a isso eram obrigados… e, vários curiosos. Havia uma série de coisas para fazer, antes de “embarcar”. Meu pai foi tratar disso.

Chegou algum tempo depois, mas... para dizer que o avião tinha chegado com uma avaria e que estavam a tratar disso…

-“Bolas! Ir num avião que acabava de chegar, avariado!!!!... Não me senti especialmente feliz com a notícia.”

Bom… o pior é que passada cerca de uma hora, nos vieram dizer que a avaria exigia uma peça nova, e que ela teria de vir de Lço. Marques… pelo que o voo ficava adiado.

Uf!... Pelo menos já não íamos naquele dia! Com uma avaria remediada, se calhar, à pressa!...

Voltámos para casa… mais uns dias de férias… Bestial!...

Dois ou três dias depois, com céu meio encoberto… lá voltámos ao aeroporto…

Desta vez era para valer mesmo. A peça tinha chegado e até tinha vindo com ela um Engenheiro da DETA, para corrigir a situação. Ele regressava a Lço. Marques connosco.

- “Todos a bordo!”

Fiquei sentado no último banco cá atrás, do lado direito da cabine… o único duplo. Mas fiquei junto à janela, donde podia ver tudo lá para baixo pois ficava atrás da asa direita. Ao meu lado ficou sentado um “miúdo”, também estudante, cujo nome e proveniência já me não recordo… e também, o tal Engenheiro da DETA.

Hoje ao ver uma réplica do Junker no Portugal-dos-Pequenitos em Coimbra… admira-me o quão pequeno era aquele avião… e como era pequena a cabina e acanhados os lugares para os passageiros. Na altura achei-o, com prazer… um avião bem grande, com uma cabina bem espaçosa… comparando-o com os outros em que já fizera aquela viagem antes… É giro ver como são diferentes as perspectivas, de acordo com as transformações que nós próprios vamos sofrendo!...

No banco à minha frente sentou-se a D. Ana do Chinde (que só agora fiquei a conhecer, ao ler o extracto do livro do Comandante Faria Peixoto). Vinha com uma perna engessada (provavelmente partida…) e que ajeitou ao lado do banco à sua frente. Era mesmo uma pessoa alegre e comunicativa.

Levantámos voo e seguimos viagem, impecavelmente, com bom tempo e, rapidamente estávamos acima daquelas grandes nuvens muito brancas e resplandecentes ao sol, desenhando aqui e ali formas variadas, com pequenos nichos de sombra, a dar-lhes aquela perspectiva tridimensional maravilhosa. Voávamos dentro de um pequeno-grande mundo virtual… que estava mesmo ali!

Parámos na Beira. Sempre uma delícia sair do avião!... Muito melhor do que quando entramos… Terra firme!... vida e movimento!... O calorzinho de “lá-de-fora”!... andar, ver e contactar com pessoas e paisagens diferentes…

Voltámos ao voo, a caminho de Lço. Marques… das aulas… das jogatanas muito disputadas ao berlinde, nos intervalos… dos jogos do “paulito” na Rua Coronel Galhardo por trás da 24 de Julho, com a “malta” (o Manel – Cara-Suja, o Rodrigo Tudela, o Nuno Revés, e às vezes outros que se nos juntavam) … das cowboiadas nas matinés de sábado no Scala, à borla, naquela “nossa” fila do balcão, com direito a filme duplo, mais um episódio do Super-Homem, mais aquele batido de sorvete e coca-cola na Socigel, naquela esquina para onde corríamos no intervalo da matiné… (era uma fila atribuída aos Cabaços e amigos – o Zé Luís Cabaço, o Manel Jorge, o Márito e a Nélita)…

Bom! Mas surpresa!... Estávamos a perder altura de forma controlada e íamos aterrar de novo!... Seria Inhambane?...

Era Mambone. Um aeroporto desactivado. Aterrava ali pela primeira vez. Bestial! Mais um aeroporto conhecido!... Era uma pequena pista (mal amanhada) e uma palhota grande, com espaços para as pessoas poderem estar… com bancadas de madeira… e um compartimento fechado, onde havia um telefone.

Tínhamos parado para que a tripulação ficasse a saber bem como estava o tempo entre Inhambane e Lço. Marques.

Havia um ciclone que se mantinha nessa zona. Ainda bem que o Comandante Nogueira tinha metido na Beira, gasolina em quantidade francamente superior à habitualmente necessária, pois iríamos ter assim, maior disponibilidade de recursos para enfrentar o mau tempo.

- “Tudo p'ró avião!”

E aos “tropeções” na pista de Mambone lá levantámos voo… (o último daquele Junker… que até tinha na altura, a mesma idade que eu… 11 anos).

O tempo estava magnífico… radioso…

… Bem à nossa frente! … De repente!... Desenhou-se o horrível!...

Uma enorme massa de nuvens cinzentas e negras… estendendo-se de horizonte a horizonte…em direcção às quais, estávamos inexoravelmente a voar…

Era nítida a diferença entre o espaço limpo, luminoso, ensolarado e rico daquelas nuvens, cúmulos majestosos, em que agora voávamos e aquela enorme massa cinzenta-negra, bem ameaçadora, em direcção à qual estávamos a avançar a grande velocidade.

Estamos tramados! Vai começar a “dança”! – pensei.

Os 3 motores do Junker mantinham a sua toada, ronronando de forma uniforme… a que já nos habituáramos…

Bom! Começou! Entrámos nas nuvens negras! O avião começou logo a sacudir-se… a abanar… e começaram os malditos poços-de-ar…de vez em quando lá tínhamos aquelas quedas-desamparadas… para logo depois ficarmos pregados nos lugares com o avião a retomar a altitude a toda a força dos seus três possantes motores da Junker.

Sentimos o avião a lutar para subir acima daquela massa de nuvens ameaçadoras… Continuavam as sacudidelas, abanões e poços-de-ar… mal saíamos de um, caíamos logo noutro!...

As pessoas começaram a enjoar e a vomitar nos respectivos sacos, que depois punham nas redes por cima das cabeças, já fechados e cheios.

Alguém precisou de ir ao WC, um pouco atrás do nosso banco… quando de lá saiu ficou um rasto algo mal-cheiroso… que acabou por passar…

O avião não conseguiu (ou não quiseram forçá-lo a isso) sobrepor-se às nuvens do ciclone, e à alti-tude a que voávamos viam-se em baixo, só copas-de-árvores-enormes e… água. Os terrenos que sobrevoávamos já estavam encharcados com aquela chuva ciclónica.

Lembro-me de pensar como seria bom que aterrássemos depressa para que aquilo tudo acabasse. Estávamos, de repente, todos exaustos de tanto abanão… de tanta tensão, com aquelas quedas bruscas e subidas também bruscas…

De repente!

- “Rezem meus filhos que vamos morrer! Avé Maria, cheia de Graça…”

A D. Ana do Chinde, mesmo à minha frente soltara este grito, começando logo a rezar… e nós todos a segui-la na oração e a responder-lhe alto nas – “Santa Maria, Mãe de Deus…”

Olhei de imediato para o meu motor (o da asa direita) e estava tudo bem. Foi quando consegui, apesar dos abanões, espreitar para o motor da esquerda… que percebi – estava parado!!!! Mas o Junker tinha 3 motores… O avião mantinha-se impecável no seu ímpeto selvagem a subir rapidamente quando recuperava de um poço-de-ar… os abanões e sacões eram os mesmos…

- “Santa Maria, Mãe de Deus…”

Pronto! Isto está mesmo mal! O motor da direita, ali mesmo a meu lado, “resfolegou”… ainda ten-tou… mas acabou também parado!!!... Como estaria o motor da frente?????

Também parara...

Aí vamos nós a planar… mas super-exaustos para pensarmos em alguma coisa… e anestesiados pela oração…

- “Avé Maria, cheia de Graça…”

Lá em baixo, agora mais nítido… era só água e copas-de-árvores… copas-de-árvores e água… chovia torrencialmente, relampejava e o avião sacudia-se numa “dança-maluca”…

- “Uiiiii!!!... Um poço-de-ar bem maior… em que o avião “parecia-que-se-tinha-dobrado-a-meio-e-descido-a-pique”… para endireitar-se depois… mas sem ter feito então, aquele potente esforço motorizado habitual para retomar a altitude…

- “ Santa Maria, Mãe de Deus…” Continuávamos todos a rezar. Tinham-nos mandado apertar os cintos. Nós naquele banco duplo, não os encontrámos. O Engenheiro fincou os pés na base do banco da frente e agarrou com força o meu companheiro, ao seu lado. A mim aconselhou-me que me segurasse ao ferro horizontal das costas do banco da frente e que baixasse a cabeça.

- Uiiii!!!... Mais uma vez aquele frio horrível na barriga, produzido por nova queda aparentemente a pique, devida a novo poço-de-ar e mais uma vez o avião a endireitar o nariz e a reequilibrar-se naquela barafunda infernal… mas sem voltar a ganhar altitude…

- “Ave Maria cheia de Graça…”

Já estávamos bem baixos… A aterragem estava eminente… Chovia torrencialmente… O avião sacudiu-se ao cortar os ramos de uns coqueiros e algumas árvores com as asas e os estabilizadores do leme e…

Buumm!...Buumm! Esssssssllslslsls!... Silêncio!...

Doía-me a cabeça à frente e atrás… das pancadas que terei dado no ferro do banco da frente…mas… de resto tudo bem! Logo apareceram os tripulantes com as caras ensanguentadas, com vários lenhos, escoriações e cortes… mas “completamente bem”!

Todos bateram as palmas e todos se levantaram a abraçar-se.

O Engenheiro com alguma dificuldade, pois escorregara e magoara uma perna debaixo do banco da frente do lado esquerdo da coxia central… a ponto de partir o banco. A D. Ana, com a sua perna engessada, escapara ilesa e fazia por se levantar e felicitar efusivamente os pilotos e todos. Estávamos todos bem!

O avião “sossegara” de vez! Lá fora só chuviscava e nem estava uma tarde muito escura!...

Com a violência do embate...os sacos com vómitos caíram de cima das redes e espalharam o con-teúdo por onde calhou. A porta do WC tinha-se partido… os cheiros misturaram-se e eram nauseabundos…

Vomitei! Por certo pelo cheiro… pelos nervos… pelo fim daquela tensão toda.

Abriram-se as janelas de emergência para ventilar… saíram os maus cheiros, mas entraram nuvens de mosquitos…

A porta do avião abriu, não sem alguma dificuldade.

Um ou dois dos tripulantes saíram, pois tinham avistado umas pessoas, por certo habitando ali por perto, que teriam presenciado a queda do avião. Mas voltaram sem terem encontrado ninguém, nem habitações.

Recolheram-se as bolachas, merendas e garrafas de água ou sumos que as pessoas levavam. À cautela.

Nós os miúdos, acomodámo-nos nos bancos em que vínhamos para não atrapalhar os movimentos e deliberações dos adultos. A noite caíu rápida. Acenderam-se candeeiros a petróleo para não gastar as baterias… necessárias para pedidos de socorro, pela rádio, na manhã seguinte.

Para os mosquitos da Lagoa Pati, em cujas margens tínhamos aterrado… estava a ser um festim… mas a cada palmada também matávamos aos seis ou sete de cada vez…

Os calções curtos e balalaica de manga curta que trazia… por mais que me enrolasse no meu canto do banco duplo… não me conseguiam livrar minimamente daquele feroz bicho da selva africana.

Os grilos, as rãs e a restante bicharada da zona, ia enchendo a noite de ruído… mas ruído do bom… ruído bem terrestre e conhecido… que nos encantou.

Olá! Estavam umas luzes lá fora a aproximarem-se de nós! Alguém vinha ter connosco!

Era um professor, regente escolar, de uma Escola próxima, que tinha sido alertado pelas tais pes-soas que tinham presenciado a queda do avião, e que já tinha enviado “estafetas” a comunicar a nossa situação e localização à Administração de Macia.

E… Maravilha! Trazia leite e chá quentes, em garrafas térmicas, e mandioca cozida (sem sal). Coube a cada um de nós uma chávena de leite quente (e chá se quisesse), e duas mandiocas cozidas. Huum!... Uma delícia!... Mesmo sem sal…

Tudo na maior!... Se não fossem os mosquitos…

Dormimos o que pudemos.

Madrugada bem cedo chegaram 3 a 4 Jeeps que desceram a mata até bem perto do avião, com pessoas da Administração de Macia, com mais leite e chá quente, pão, bolos e bolachas… Ninguém passou fome mesmo…

Agora é que podíamos ver bem o avião. Só tinha os estabilizadores do leme da cauda esfrangalha-dos. O trem de aterragem, partido no primeiro e estrondoso embate, tinha ficado uns 100 metros atrás…o avião tinha deslizado “de barriga”… e parado a outros 100 metros das primeiras árvores em frente… Perícia do Comandante Álvaro Nogueira e... Milagre para todos!...

A caravana partiu aliviada e bem disposta para Macia. A Esposa do Administrador e as outras Senhoras tinham preparado um “lanche-almoçarado” volante, em grandes mesas. Comemos e bebemos refrigerantes e sumos à vontade.

- “Quem é o estudante António César Morais?...”

- “Sou… eu! Disse, admirado…

- “Venha daí, que vai ser o primeiro a ser evacuado! A avioneta já está pronta!

- “Mas… eu? … Porquê?... Assustei-me… (Avioneta!!! NÃO!!! Eu NÃO!!! De avião outra vez!!!!? Não! Não!... Mas que fazer para o evitar????)

- “Sim. O seu pai está no aeródromo do Bilene, à sua espera e pediu-nos para que fosse o primeiro a ir.”

- Mas… de avião?!!!...

- “Sim. O ciclone cortou a estrada entre Macia e o Bilene. Está tudo inundado. Tem de ser de avio-neta.”

Enfiaram-me um enorme casacão de couro, que me tapava até aos pés, e um capacete também de cabedal, de aviador, com óculos de protecção (daqueles antigos)… Bom até já me estava a sentir vaidoso com aquela fardeta, a sério, de aviador…

Sentei-me no lugar da frente, amarrado com vários cintos de segurança… com uma “desgramada” de uma “manete” de comando entre as pernas… que afastei o mais possível dela, durante toda a viagem (para não atrapalhar minimamente o comando da avioneta)… o piloto sentou-se no lugar de trás…

E lá fomos. A avioneta rolou na pista de Macia e… até rolar e parar na pista do Bilene… eu mal ousava esticar o pescoço para ir vendo os terrenos alagados que íamos sobrevoando…

E no Bilene tinha, claro, o “Pai-mais-querido-do-mundo” à minha espera.

Foi quando nos fotografaram para o Notícias.

Ele tinha sido o único pai que soubera do acidente na própria tarde do dia anterior, porque, estando de serviço em Lço. Marques, tinha ido ao aeroporto esperar-me. Tinha sabido da queda do avião com os motores parados por falta de gasolina… e só nessa manhã soubera que estávamos todos bem. Passara uma noite atroz!

Viemos de carro do Bilene para Lço. Marques. Dois dias depois estava de cama com uma crise valente de paludismo, que “graças-a-Deus” foi rápida e eficazmente debelada só com uma semanada de cama.

César Morais 2007

Histórias de um passado em Moçambique - "Aterragem Forçada" (versão Cmdt.Faria Peixoto)

Também me parece interessante ouvir este relato de um camarada da D.E.T.A...

Mas com o meu colega, o Comandante Álvaro Nogueira, da D.E.T.A. deu-se um acidente de uma categoria à parte.

É um desses casos que ilustra do que um homem é capaz, quando perde o domínio da máquina.

Foi um Junker, um avião que depois de carregado pesa bem mais que dez toneladas. Era a altura da abertura das aulas no Liceu de Lourenço Marques e iam quinze estudantes e uma senhora, a D. Ana do Chinde, muito conhecida pela sua coragem e desenvoltura na vida.

Voavam da Beira para Lourenço Marques e o vento sul soprava fortíssimo. Começaram a aparecer nuvens negras, mas isso pouco afectava um bicho daqueles. O avião foi subindo, subindo, até que atingiu a altitude ideal para fazer o seu voo. Continuou, mas qualquer coisa de grave estava para acontecer.

A tempestade começou a tomar proporções assustadoras.

Ao fim de três horas, quando devia estar já próximo de Lourenço Marques, o avião era terrivelmente sacudido e quase que havia pânico a bordo. O Nogueira, através de azimutes constantes verificou que sofrera uma deriva extraordinária para a direita. Corrigiu o rumo e continuou na esperança de depressa alcançar Lourenço Marques. Mas ao fim de mais uma hora verificaria que se encontrava ainda muito distante.

O Junker é um avião bastante grande. Parece uma caixa e é muito vagaroso, de maneira que quan-do o vento lhe pega, é um instante enquanto o coloca numa posição que a gente não quer. Foi o que aconteceu. o avião devia estar muitíssimo à direita e então o Nogueira resolveu rodar noventa graus à esquerda do rumo que segui, pois quando baixasse teria o mar à sua frente sem obstáculo nenhum.

O tempo foi passando e andavam já no ar há perto de cinco horas. Vento fortíssimo e traiçoeiro conduzira para uma situação desesperada. Então, resolveu descer, e não tinha iniciado a decida há muito, quando os motores pararam. Três motores! Ele sentiu-se perdido. Quase, porque um piloto quando tem fibra, nunca se sente perdido.

E era um casarão enorme a vir por ali abaixo, sem apelo nem agravo. Tinha mesmo que vir. A chuva e o vento fustigavam-no numa sinfonia terrível.

Dizia-me mais tarde o Nogueira que só via chuva, relâmpagos e ouvia o avião a bufar. É que quando um avião vinha lá das alturas, naquelas circunstâncias, com a diferença rápida nas densidades da atmosfera, os nossos ouvidos sentem o avião bufar mesmo. Toda a atenção do piloto se concentrou para que, logo que visse terreno, fosse de que espécie fosse, meter lá a máquina, sabendo de antemão que a partia mesmo, mas tentando safar os seus passageiros.

E safou-os! De repente, já muito baixo, a razar o chão, viu água numa lagoa, à beira-mar, que tinha uma margem formidável e que recebeu o avião de braços abertos. Descoberto aquilo, foi meter um pé no pedal, o avião deslizou de lado, endireitou-o, perdeu a velocidade, bateu com a cauda num cajueiro - onde ficou - e bateu pesadamente à frente, jé em terreno firme. O choque ainda foi grande e o avião ficou inutilizado. Estava apenas a vinte minutos de Lourenço Marques. A miudagem tinha antes sido bem amarrada nos seus lugares, mas houve uma tal de Malicha, que era uma miúda levada da breca, que tinha desapertado o cinto por sua alta recreação. No momento da aterragem voou por cima das cadeiras todas, de unhas abertas e foi cravá-las em desespero no pescoço e braços de uma colega, Fernanda Marçal, que ia bem à frente.

Foram as únicas que tiveram ferimentos. Os tripulantes Nogueira, José Rodrigues e Trancoso, como tiveram de encarar de frente a situação por que passavam, foram dar as respectivas caras bem naquele imenso tablier e lábios inchados e arranhões não lhes faltaram.

Mas tudo correra bem. Passaram depois uma noite diabólica ali ao pé da lagoa, onde os mosquitos zumbiam aos milhões. Pela madrugada vieram socorros. Alguém dera pelo que se passara e foi à Administração mais próxima avisar. Foram todos transportados de carro até Lourenço Marques e aí seria a Rádio a tirar partido do acontecimento sensacional. As miúdas foram entrevistadas e teceram elogios formidáveis ao piloto. A D. Ana do Chinde, então exuberante como era e contente como estava por se safar daquela, dizia: "Só a este belo pessoal da D.E.T.A. se deve não ter havido desastre fatal! Todos devemos a vida ao sangue frio e à pericia do Comandante Nogueira!" Quando chegou a vez deste falar, foi pior.

O locutor procurava tirar o máximo partido da situação, perguntando-lhe quais as suas reacções naqueles momentos terríveis, com os motores parados ainda no meio do temporal, e se ele tivera esperanças de não matar toda aquela gente, Então ele, Nogueira, deve ali mesmo ter recordado os maus momentos por que passou e deve ter sentido o tal nó na garganta. Sentiu uma emoção grande e só disse: "Tivemos sorte!" As lágrimas rolaram pela cara abaixo e não pôde dizer mais nada.

Ele portara-se à altura!

.......................Cmdt.Faria Peixoto)............

enviado por: César Morais

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Sardinhada - Festas de São Pedro


Caros amigos e sócios

Estamos em época de Santos Populares e os convívios sucedem-se.

Na Acrenarmo também iremos festejar o São Pedro com uma sardinhada e com musica para animar.

A entrada é de apenas 1,5€ com oferta de uma bebida.

Gratuito para crianças até aos 10 anos.

As sardinhas irão estar na brasa para a deliciar o pessoal.

Junta-te a nós para uma noite bem passada onde a musica irá estar presente para um pé de dança.

O local, é na nossa sede, pelas 17,00h +-, no pátio da sede e o castelo irá estar lá em cima a observar-nos.

Não faltes! Vai ser muito bom!

Até Sábado

--

ACRENARMO-Associação Cultural e Recreativa dos Naturais e Ex-Residentes de Moçambique

Largo de São Pedro – 2400–035 LEIRIA

Tel. 244 835 788

acrenarmo@gmail.com

http://www.acrenarmo.blogspot.com/

terça-feira, 22 de junho de 2010

Histórias de um passado em Moçambique - "Sou Feliz"

Sou Feliz

Sou Feliz porque nasci em Inhambane
porque Inhambane é o meu chão
porque é a Terra da Boa Gente
e Terra da Boa gente significa na Língua Gitonga "entra para dentro de casa"
convite que os habitantes fizeram aos portugueses que ali aportaram
para se resguardarem da chuva e Camões canta em "Os Lusíadas
porque a minha Língua é a Língua Portuguesa
porque a Língua Portuguesa me deu uma Pátria
porque chapinhava nas águas da chuva ao sol e ao vento
porque depois apanhava filária tratada com cortes de lâmina e banhos de águas de plantas africanas colhidas no mato
porque apanhava matacanhas curadas com cinza quente depois de tiradas com um alfinete por desinfectar
porque andava descalça na areia a ferver sem me importar com os picos bem afiados
porque comia mangas verdissimas que provocavam febrões a valer
porque comia comia jambolão ,cigoma,zirriva,maçãzinhas ,moranguinhos bem maduros da ganga ou verdes com peixe
porque saltava o muro das minhas vizinhas "nunos"que me davam linfete e bolinhos de coco
porque fui mãe de cinco filhos todos amamentados com chá de ganga ,amargo como fel que me punha os seios como cabaças
porque assim tinha leite com fartura sem que beber cerveja preta que detestava
porque deste modo o leite nem encaroçava os seios
porque durante seis anos guiei à revelia
porque fui criada entre africanos com quem joguei à bola e fugia para a praia à cata dos caranguejos verdes
porque sou do tempo do xitimela até Inharrime para aí se apanhar uma camioneta "o tornicrofe"semelhante a uma carrinha celular todinha em ferro e com janelinhas no topo para aliviar o calor dos viajantes
porque fui aluna do Colégio das Freiras Franciscanas onde aprendi Francês a sério com uma freira educada no Sacré Coeur em França
porque sou do tempo do XINKWERRENGUE aos sábados onde os brancos iam dançar com as meninas da cor do ébano à socapa da família tranquila em casa
porque o meu molungo engenheiro ,um agnóstico ferrenho mas um humanista de verdade nunca levou uma quinhenta pelos projectos para igrejas,mesquita ,escolas,colégio,maternidades ,poços para os africanos ,maternidades
porque tive um pai de "letras gordas"que no primeiro dia que dei aulas me disse para nunca me esquecer que nascera num país de muitas raças e religiões e pelo facto de ser branca não tinha o direito de me impor ,mas respeitar as diferenças
porque tive uma mamana que me criou e só queria que a sua "sanana "viesse para o xilunguine dos brancos de primeira
porque o cipaio Geremias me adorava e não dizia à minha mãe que estava num galho a comer amendoas vermelinhas cheias de fios saborosos
porque fisgava as galas galas de cabeça azul a passarinharem pelos muros
porque cada filho plantou uma árvore
porque o mainato Júlio corria pelo quintal com o meu filho para respirar nos acessos de tosse convulsa
porque em Inharrime há poços de petróleo selados desde 1948 pela Golf Oil
porque fartei -me de ver pombos verdes a esvoaçar de coqueiro em coqueiro no Mocucune
porque sou branca de segunda classe
porque fui professora de alunos que hoje ocupam cargos políticos no Moçambique Moderno
porque tenho paludismo crónico que de tempos a tempos me dá noticias
porque vi tubarões velozes ,dugongos,peixes voadores,peixes sapos ,magajojos a espichar ranhecas sempre que pisados armados em espertalhões para não serem caçados
porque comi maningue mandioca torrada e cozida ,matapa,bagias maningue chamussas ,casquinhas de caranguejo ,linfete ,torradinhas de sura ,coco lenho com acúcar ,castanha de cajú a estalar debaixo de uma chapa de zinco
porque as minhas amigas eram brancas,pretas,mulatas e mussulmanas
porque andei de batelão ao ritmo da "Maria Tereza zikuta
porque os madalas e cocoanas eram respeitados
porque o meu filho mais velho não fez aquela guerra inútil que só serviu para mutilar corpos e almas
porque vivo num país onde toda a gente ralha e com razão
porque nunca fui uma" burguesa empatée"
porque o artigo 4ºdos acordos se esqueceu de "respeitar bens e pessoas"e aprendi a comer o pão que o diabo amassou
porque tive a capacidade de sobreviver à marginalização
porque fui conotada como "colonialista"sem o ser
porque este País aprendeu a lição e lutou com garra pela causa de Timor
porque ainda viajei na frota colonial por mares nunca dantes navegados
porque este país continua a ser um País "mais desvairadas gentes"
porque sei onde fica a Ponte Salazar
porque também sei cantar "Vila morena"
porque prezo o respeito pela instituição ESCOLA como fonte do SABER
porque ainda tenho respeito por valores humanos
porque revisitei INHAMBANE onde fui carinhosamente acolhida
porque visitei "pertenças minhas "com estoicismo
porque nada posso fazer pela mediocridade ,nem pelos pavões de brutas bombas .

Sou realmente feliz por estar viva ,sã e ser uma avó de netos que me amam

SOU REALMENTE FELIZ.

Maria Fernanda de Sá Pires

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Histórias de um passado em Moçambique - "MÃE ÁFRICA"

MÃE ÁFRICA



QUE FAZER DE TANTA SAUDADE
VENTOS PRA LONGE ME TROUXERAM
VIDAS SEM FIM SILENCIARAM.

QUE FAZER DE TANTA SAUDADE
PRECISO ESTAR PERTO DE TI
PRA CUIDARES OUTRA VEZ DE MIM.

Ó MÃE ÁFRICA
COBRE ESTE FRIO TIRITANTE
BEBE AS LÁGRIMAS QUENTES
CALA SOLUÇOS ASFIXIANTES

SOU UM BARCO SOBRE O TEU AZUL
GAIVOTA DE OLHOS FECHADOS
FAROL EM VOO FINAL.
MÃE ÁFRICA
QUE FAZER DE TANTA SAUDADE
DOS LABIRINTOS SOLITÁRIOS
ESTRELADOS,CHORADOS,MAGOADOS.



MARIA FERNANDA DE SÁ PIRES


Exmos Srs


Aqui vai um poema sobre Moçambique para o vosso desafio literário dirigido a ex-residentes ou naturais de Moçambique. Espero que seja uma boa contribuição para divulgar a nossa terra e transmitir aos outros o que ela tem de especial.

Bem hajam

Mª Fernanda

Kanimambo Moçambique

Kanimambo Moçambique
Kanimambo…
Pelas maravilhosas recordações
Que bem gravadas foram ficando
Cá dentro dos nossos corações…

Kanimambo…
Pelo fantástico espectáculo sedutor
Que nossos olhos se deleitaram
Com as fabulosas acácias em flor…

Kanimambo…
Pelo cheirinho a terra molhada
Com a chuva da madrugada
Ao som do estrondear da trovoada…

Kanimambo…
Pelas frutas tropicais de singular sabor
Como as belas tangerinas de Inhambane
Ou os sumarentos cajus de avermelhada cor…

Kanimambo…
Pelo gostinho de uma manga com sal
Pelas “tsintshivas”, hum! … que saudades
Pela água de coco tão divinal…

Kanimambo…
Pelas deliciosas maçarocas assadas
Que comprávamos em qualquer rua
Bem quentinhas, estaladiças e douradas…

Kanimambo…
Por aquele marisco sem igual
Pelo sabor duma gelada “Laurentina”
Por toda esta dádiva substancial…

Kanimambo…
Pelo Bazar, onde o cheiro das frutas
Dos legumes, do peixe e das especiarias
Se misturava com a algazarra das labutas...

Kanimambo…
Pela beleza do cantar dos xiricos
Pela ternura dos macacos do Parque de Campismo
Que nos roubavam os chocolates… que mafarricos…

Kanimambo…
Pelo enorme privilégio
De neste paraíso ter nascido
Me sinto como um ser egrégio…

Kanimambo…
Pela vivacidade do olhar daquelas crianças
Com as bocas escancaradas a rir
Traz-me à mente tantas lembranças…

Kanimambo…
Pela alegria das exóticas “tombazanas”
Carregando às costa seus rebentos
Envoltas em garridas “capulanas”…

Kanimambo…
Por tantas manhãs de Domingo
Passadas nessas idílicas praias
Jogando futebol, convivendo e se abrindo…

Kanimambo…
Pelas cores do esplendoroso sol africano
Pelas praias de tão transparentes águas
Pelas areias brancas junto ao Índico oceano…

Kanimambo…
Por aquela imagem do “4 Estações”
Que recordo com muita saudade
E ficará na memória de várias gerações…

Kanimambo…
A todos que ajudaram a construir
A mais linda cidade de África
Que jamais deixará de nos atrair…

Pela muita alegria, emoção e felicidade
Por um respeitoso e saudável despique
Aqui eu digo com sincera humildade:
KANIMAMBO MOÇAMBIQUE

Luís Pestana
Setembro 2009

Nota: Escrevi estes versos, inspirados a partir de um e-mail, em prosa, que recebi de uma ilustre desconhecida, que dá pelo nome de BELITA, datado de Março de 2009!